Eleição no Peru em tempo caótico … 1000 votos de diferença ! 

Foi concluida s contagem inicial dos votos no segundo turno das eleições presidenciais peruanas mas as autoridades eleitorais iniciam agora um longo processo de revisão dos votos contestados.

O Peru vive um dos momentos políticos mais tensos e incertos da sua história democrática recente. Concluída a contagem inicial dos votos da segunda volta das eleições presidenciais, os dois candidatos encontram-se separados por uma diferença mínima de pouco mais de mil votos, num universo de cerca de 18 milhões de boletins contabilizados.

Apesar do encerramento da apuração preliminar, o país está longe de conhecer o nome do próximo Presidente da República. As autoridades eleitorais iniciam agora um processo detalhado de revisão de votos contestados, num cenário que promete intensas disputas jurídicas, políticas e institucionais.

A candidata conservadora Keiko Fujimori, herdeira política do movimento fundado pelo antigo Presidente Alberto Fujimori — uma figura altamente controversa da política peruana — surge com uma vantagem extremamente reduzida. Segundo os resultados preliminares, Fujimori obteve 9.036.046 votos (50,004%), enquanto o candidato de esquerda Roberto Sánchez alcançou 9.034.743 votos (49,996%).

A diferença entre ambos ronda apenas 1.300 votos, tornando esta uma das eleições mais renhidas da história do país.

No entanto, o desfecho permanece em aberto. Mais de 1.600 secções eleitorais, representando cerca de 400 mil votos, encontram-se sob revisão devido a irregularidades processuais, erros de preenchimento das atas, caligrafia ilegível, inconsistências matemáticas ou contestações apresentadas pelos representantes das campanhas.

Grande parte destes votos provém de Lima, reduto eleitoral favorável a Fujimori, bem como dos círculos eleitorais no estrangeiro, cujo peso poderá revelar-se decisivo no resultado final. Este cenário alimenta suspeitas e acusações mútuas entre os dois campos políticos, sobretudo em relação ao controlo e fiscalização do voto externo.

O sistema eleitoral peruano determina que cada mesa de voto elabore uma ata final com os resultados apurados. Sempre que são detetadas falhas administrativas ou dúvidas sobre a legitimidade dos números apresentados, essas atas são remetidas para análise por um júri eleitoral especial, composto por três membros.

Nos casos mais simples, como erros de soma ou lapsos de transcrição, a correção pode ser feita rapidamente e integrada na contagem oficial. Contudo, quando existem dúvidas mais complexas ou contestações formais, podem ser convocadas audiências públicas, abertas à observação dos partidos e da sociedade civil.

Além disso, os recursos podem ainda subir ao tribunal eleitoral superior, prolongando significativamente o processo.

A situação tornou-se ainda mais complexa depois de a equipa de Roberto Sánchez ter apresentado quatro pedidos formais de nulidade, procurando invalidar os resultados de cerca de 2.400 secções eleitorais. Um dos pedidos incide sobre aproximadamente 1.750 secções em Lima, enquanto os restantes abrangem cerca de 650 secções no estrangeiro.

Num país marcado por crises institucionais, sucessivas mudanças presidenciais e uma profunda polarização política, o processo poderá arrastar-se durante semanas antes de existir um vencedor oficialmente reconhecido.

Para já, o Peru permanece suspenso numa rara situação em que pouco mais de mil votos podem decidir o futuro político de uma nação com mais de 30 milhões de habitantes.