Tenho dito e reitero: somos dos poucos — senão o único — media que tem dado voz à diversidade de opiniões sobre este conflito, incluindo aquelas que, vindo da Esquerda, ousam questionar a lógica belicista que se instalou em boa parte da opinião publicada.

Temos valorizado, de forma clara e coerente, os apelos à paz lançados por vozes respeitadas como o Papa Francisco, o Presidente Lula da Silva e o Presidente sul-africano Cyril Ramaphosa.

É por isso que, sem receio de polémica, temos ridicularizado a ideia absurda de que defender a paz — como o PCP faz — é sinónimo de apoiar a guerra levada a cabo pela Federação Russa. Não é apenas uma falácia: é um insulto à inteligência e à história.

Convém lembrar que foi o PCP, muito antes de muitos outros, a denunciar a transformação da Rússia num país entregue ao capitalismo selvagem, dominado por oligarcas e interesses económicos sem escrúpulos. A coerência do partido nesta matéria merece, pelo menos, um reconhecimento honesto.

Infelizmente, o que se vê por cá é uma profunda pobreza no debate político e uma fraquíssima qualidade da informação partidária, que em vez de esclarecer, alimenta confusões e preconceitos. Ignorância ou má fé? Talvez um pouco de ambos.

A verdade é esta: nem Portugal, nem a União Europeia estão em guerra com a Rússia ou com a Ucrânia. Portanto, não existe qualquer fundamento constitucional, ético ou geoestratégico que justifique a aplicação de recursos do Orçamento de Estado português numa guerra que não é nossa.

Pelo contrário, o que o PCP defende está em total consonância com a própria Constituição da República Portuguesa, que proclama, de forma inequívoca, o compromisso de Portugal com a paz, a solução pacífica dos conflitos internacionais e a autodeterminação dos povos.

Talvez valesse a pena reler o Acordo de Minsk, tantas vezes esquecido, e refletir seriamente sobre como chegámos até aqui — e sobretudo, como sair deste labirinto sangrento sem alimentar ainda mais o sofrimento dos povos envolvidos.

 

ARTIGO 7.º

(Relações internacionais)

1. Portugal rege-se nas relações internacionais pelos princípios da independência nacional, do respeito dos direitos do homem, dos direitos dos povos, da

igualdade entre os Estados, da solução pacífica dos conflitos internacionais, da não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados e da cooperação com

todos os outros povos para a emancipação e o progresso da humanidade.

2. Portugal preconiza a abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e exploração nas relações entre os povos, bem como o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a disso-

lução dos blocos político-militares e o estabelecimento de um sistema de segurança coletiva, com vista à criação de uma ordem internacional capaz de

assegurar a paz e a justiça nas relações entre os povos.