Já Los Angeles nasceu com a designação completa de El Pueblo de Nuestra Señora la Reina de los Ángeles de Porciúncula. A referência à Porciúncula, pequena capela situada em Assis e centro espiritual do franciscanismo, revela a intenção explícita de transportar para o Novo Mundo uma matriz religiosa profundamente enraizada na tradição cristã europeia.
No âmbito desta investigação, visitei a zona histórica espanhola de Los Angeles, onde se encontra a antiga igreja de Nuestra Señora la Reina de los Ángeles, conhecida como La Placita. Esta igreja, situada junto à casa de D. Francisco D’Ávila, um dos primeiros habitantes e figuras relevantes do período inicial da cidade, constitui um dos núcleos fundadores de Los Angeles. O local conserva uma forte carga simbólica e histórica, onde se cruzam a presença espanhola, indígena e franciscana. A igreja permanece como sinal da missão evangelizadora que esteve na origem do povoamento e da organização social inicial da cidade.
A par desta dimensão histórica, procurei compreender a atualidade do carisma franciscano em Los Angeles. Nesse contexto, visitei o Centro Social de São Francisco, situado na Baixa de Los Angeles. A sua localização é profundamente significativa, pois encontra-se numa das zonas mais carenciadas da cidade, marcada por pobreza extrema, exclusão social e uma presença maciça de pessoas em situação de sem-abrigo.
À entrada do centro, uma pintura de São Francisco de Assis acolhe quem chega. Em redor, multiplicam-se as tendas improvisadas que ocupam ruas inteiras. O contraste entre a imagem do santo da pobreza voluntária e a pobreza forçada do século XXI é particularmente expressivo. Circular a pé nesta zona comporta riscos reais, num ambiente onde o abandono social, a fragilidade humana e a insegurança se tornam evidentes.
Apesar deste cenário duro, a ação franciscana mantém-se viva e coerente com o seu espírito fundador. O apoio alimentar, o acolhimento dos indigentes e a presença contínua junto dos mais vulneráveis continuam a ser uma prioridade, tal como o foram nos primórdios da fundação das cidades californianas. A missão não se limita à assistência material, mas traduz-se numa proximidade humana e espiritual fiel à visão de São Francisco de Assis.
Os desafios contemporâneos diferem profundamente daqueles enfrentados pelos primeiros missionários espanhóis. Um dos flagelos mais visíveis é o consumo de drogas sintéticas modernas, que afeta de forma devastadora as populações mais frágeis. Ainda assim, os franciscanos continuam a acompanhar estas feridas do presente, oferecendo escuta, cuidado e dignidade, mesmo quando os resultados parecem frágeis ou difíceis de medir.
Esta experiência em Los Angeles confirma que o franciscanismo não pertence apenas ao passado colonial da Califórnia. Trata-se de uma realidade viva, global e persistente, uma verdadeira família espiritual mundial que atravessa séculos e contextos históricos distintos, mantendo como eixo central a fraternidade, a simplicidade e a atenção aos que vivem nas margens da sociedade.
Entre a cidade de São Francisco, cujo nome evoca diretamente o fundador da Ordem, a igreja histórica da fundação espanhola de Los Angeles junto à casa de D. Francisco D’Ávila e as ruas marcadas pela pobreza extrema da Baixa de Los Angeles, o espírito de São Francisco continua presente e interpelador. A herança franciscana permanece, assim, como memória viva e desafio permanente no coração das cidades da Califórnia.
Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor