OIT mostra “cartão vermelho” ao trabalho infantil: 138 milhões de crianças continuam privadas da infância

Organização Internacional do Trabalho alerta para a persistência da exploração infantil no mundo e apela a ações urgentes para erradicar um problema que continua a comprometer milhões de vidas

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) alertou que cerca de 138 milhões de crianças continuam em situação de trabalho infantil em todo o mundo, das quais 54 milhões realizam atividades perigosas, comprometendo gravemente a sua saúde, segurança e desenvolvimento.

Os dados foram apresentados pelo diretor-geral da OIT, Gilbert Houngbo, no âmbito das comemorações do Dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil, assinalado a 12 de junho, durante um evento de alto nível realizado na Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra.

Segundo a organização, mais de metade das crianças afetadas — cerca de 57% — têm entre 5 e 11 anos de idade, o que evidencia uma realidade particularmente preocupante: milhões de crianças são privadas da escola, do descanso, das brincadeiras e do direito a uma infância digna.

Sob o lema “Cartão Vermelho para o Trabalho Infantil: Jogo Limpo para as Crianças, Trabalho Decente para os Adultos”, a campanha deste ano pretende reforçar a ideia de que a infância deve ser um período de aprendizagem, crescimento, proteção e descoberta — e não de exploração laboral.

Infâncias interrompidas, futuros comprometidos

Durante o evento “Cartão Vermelho para o Trabalho Infantil: de Marrakech à Ação”, Gilbert Houngbo sublinhou que o trabalho infantil continua a roubar às crianças não apenas o presente, mas também as oportunidades do futuro.

“Para milhões de crianças, o trabalho deixa pouco ou nenhum tempo para estudar, descansar ou simplesmente brincar. São privadas de experiências fundamentais a que qualquer criança tem direito”, afirmou.

O responsável destacou, contudo, que os progressos alcançados nas últimas décadas demonstram que é possível erradicar o trabalho infantil.

“Os avanços obtidos desde o ano 2000 demonstram que é possível erradicar o trabalho infantil. Não devemos aceitá-lo como inevitável, porque não é. Devemos mostrar todos um cartão vermelho ao trabalho infantil”, apelou.

África Subsaariana continua no centro da preocupação

Apesar dos progressos registados globalmente, a África Subsaariana continua a concentrar o maior número de crianças em situação de trabalho infantil.

De acordo com a OIT, a região registou uma redução de 10% entre 2020 e 2024. Contudo, devido ao forte crescimento demográfico, o número absoluto mantém-se elevado: 87 milhões de crianças, o equivalente a quase dois terços do total mundial.

Já na região da Ásia e Pacífico, os dados apontam para uma redução significativa de 43%, demonstrando que políticas públicas consistentes e cooperação internacional podem produzir resultados concretos.

Novas ameaças: pobreza, clima e exploração digital

A OIT alerta ainda para os desafios emergentes que alimentam o fenómeno. Entre eles estão as crises económicas, os desastres naturais, as alterações climáticas e o aumento da pobreza, fatores que empurram muitas famílias para situações de extrema vulnerabilidade.

Gilbert Houngbo chamou também a atenção para um problema crescente: o papel da tecnologia digital, que, apesar das oportunidades que oferece, está igualmente a facilitar novas formas de exploração sexual e comercial de crianças.

As meninas permanecem entre os grupos mais vulneráveis, muitas vezes obrigadas a conciliar o trabalho infantil com responsabilidades domésticas, uma realidade frequentemente invisível nas estatísticas oficiais.

Marrakech traça o caminho, mas a urgência mantém-se

Durante a intervenção, o diretor-geral da OIT voltou a destacar o Marco Global de Ação de Marrakech contra o Trabalho Infantil, aprovado na Conferência Mundial sobre a Erradicação do Trabalho Infantil, como um roteiro estratégico para acelerar a resposta internacional.

Os Estados-membros assumiram compromissos ambiciosos, mas a organização considera que o ritmo atual continua insuficiente.

Em mensagem de vídeo, Houngbo foi claro:

“Esta situação é inaceitável. Temos de acelerar as ações. Toda a criança tem o direito de aprender, brincar e crescer protegida e em segurança. Precisamos agir com urgência e determinação.”

Um compromisso global que exige ação concreta

Todos os anos, o Dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil mobiliza governos, empregadores, sindicatos, empresas, organizações da sociedade civil e cidadãos para reforçar medidas destinadas à eliminação desta prática.

A edição de 2026 surge num momento decisivo, após a recente Conferência sobre Trabalho Infantil, que reafirmou a necessidade de transformar compromissos políticos em resultados concretos e mensuráveis.

Porque enquanto uma criança trabalhar para sobreviver, o mundo continuará a falhar naquilo que deveria ser mais básico: proteger a infância.

Fonte: Organização Internacional do Trabalho / ONU News (Valéria Maniero, Genebra)

https://youtu.be/o2ZRr7XfAo0?is=uoV-0dXLnpfwvl-z