Os projetos de resolução, não têm força de lei, são antes recomendações ao Governo, defendem a importância de Adriano Correia de Oliveira na música portuguesa de intervenção e na canção de Coimbra, assim como o seu papel na resistência à ditadura que caiu em 25 de Abril de 1974.

A obra de Adriano Correia de Oliveira (1942-1982) inclui dez álbuns, dois editados postumamente, perto de duas dezenas de ‘singles’ e um repertório baseado sobretudo em autores como Manuel Alegre, Manuel da Fonseca, António Gedeão, Urbano Tavares Rodrigues, António Aleixo, Rosalia de Castro e Curros Henriquez. Entre as suas mais conhecidas canções contam-se “Trova do Vento que Passa” um verdadeiro Hino da Resistência e “Tejo que Levas as Águas”.

Em plenário é também votada a petição do Centro Artístico, Cultural e Desportivo Adriano Correia de Oliveira, de Avintes, para a classificação a obra do músico como de interesse nacional, que reuniu mais de 8000 assinaturas.

Adriano Correia de Oliveira que tivemos a honra de conhecer teve como ele mesme descreveu uma infância «marcadamente rural, entre videiras, cães domésticos e belas alamedas arborizadas com vista para o rio [Douro]».

Adriano Correia de Oliveira matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em 1959 e os anos passados em Coimbra, sao de ativismo  cultural, desportivo e politico ligado à academia.

Viveu na Real República Ras-Teparta, foi solista no Orfeon Académico, membro do Grupo Universitário de Danças e Cantares, ator no CITAC, guitarrista no Conjunto Ligeiro da Tuna Académica e jogador de voleibol na Briosa.

Adere ao Partido Comunista Português, envolvendo-se nas greves académicas de 62, contra o salazarismo.

Nesse ano foi candidato à Associação Académica de Coimbra, numa lista apoiada pelo MUD.

Data de 1963 o seu primeiro EP, Fados de Coimbra. Acompanhado por António Portugal e Rui Pato, o álbum continha a interpretação de Trova do vento que passa, poema de Manuel Alegre, que será  uma espécie de hino da resistência dos estudantes à ditadura.

Em 1967gravou o álbum Adriano Correia de Oliveira, que, entre outras canções, tinha Canção com lágrimas.

Em 1966 casa-se com Maria Matilde de Lemos de Figueiredo Leite, filha do médico António Manuel Vieira de Figueiredo Leite O casal, teve dois filhos: Isabel, nascida em 1967 e José Manuel, nascido em 1971.

Chamado a cumprir o Serviço Militar, em 1967, em 1969 vê editado o álbum O Canto e as Armas, revelando, de novo, vários poemas de Manuel Alegre. Pela sua obra recebe, no mesmo ano, o Prémio Pozal Domingues.

Lança Cantaremos, em 1970, e Gente d'aqui e de agora, em 1971, este último com o primeiro arranjo, como maestro, de José Calvário, e composição de José Niza.

Em 1970, já liberto  da tropa, vem para  Lisboa, e vai trabalhar no Gabinete de Imprensa da FIL — Feira Industrial de Lisboa, até 1974.

Em 1973 lança Fados de Coimbra, em disco, e funda a Editora Edicta, com Carlos Vargas, para se tornar produtor na Orfeu, em 1974.

Com o 25 de abril, Adriano Correia de Oliveira está entre os fundadores da Cooperativa Cantabril e esteve envolvido na organização de centenas de iniciativas do PCP em todo o país, nas quais tocou.

Integra o Comité Organizador da Festa do Avante! do PCP desde a primeira edição, ao qual pertenceria até à sua morte.

Em 1975 lança Que nunca mais, onde se inclui o tema Tejo que levas as águas.

A revista inglesa Music Week elege-o Artista do Ano. Em 1980 lançaria o seu último álbum, Cantigas Portuguesas, ingressando no ano seguinte na Cooperativa Era Nova, em rutura com a Cantabril.

Vítima de uma hemorragia esofágica, morreu na quinta da família, em Avintes, nos braços da sua mãe em 1982.

A 24 de setembro de 1983 foi feito Comendador da Ordem da Liberdade e a 24 de abril de 1994 foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, a título póstumo.

Em Lisboa, Avintes, Charneca da Caparica, Vila Nova de Gaia, Samora Correia, Almada, Barreiro, Grândola, Montijo e Fânzeres (concelho de Gondomar) entre outras o seu seu nome faz parte da toponímia.

 

Discografia

 

Álbuns

 

  • 1967 — Adriano Correia de Oliveira(LP, Orfeu, XYZ 104)
  • 1969 — O Canto e as Armas (LP, Orfeu, STAT 003)
  • 1970 — Cantaremos (LP, Orfeu, STAT 007)
  • 1971 — Gente de aqui e de agora — LP STAT 010)
  • 1975 — Que nunca mais (LP, Orfeu, STAT 033)
  • 1980 — Cantigas Portuguesas (LP, Orfeu, STAT 067)

Compilações

 

 

  • 1973 — Fados de Coimbra
  • 1982 — Memória de Adriano
  • 1994 — Fados e baladas de Coimbra
  • 1994 — Obra Completa
  • 1995 — O Melhor dos Melhores
  • 2001 — Vinte Anos de Canções (1960-1980)
  • 2007 — Obra Completa

Singles e EP

 

 

  • Noite de Coimbra (EP, Orfeu, 1960) [Fado da Mentira/Balada dos Sinos/Canta Coração/Chula] Atep 6025
  • Balada do Estudante (EP, 1961) [Fado da Promessa/Fado dos Olhos Claros/Contemplação/Balada do Estudante] Atep 6033
  • Fados de Coimbra (EP, 1961) [Canção dos Fornos/Balada da Esperança/Trova do Amor Lusíada/Fado do Fim do Ano] Atep 6035
  • Fados de Coimbra (EP, 1962) [Minha Mãe/Prece/Senhora, Partem Tão Tristes/Desengano] Atep 6077
  • Trova do vento que Passa (EP, 1963) [Trova do Vento que Passa/Pensamento/Capa Negra, Rosa Negra/Trova do Amor Lusíada] Atep 6097
  • Adriano Correia de Oliveira (EP, 1964) [Lira/Canção da Beira Baixa/Charama/Para que Quero Eu Olhos] Atep 6274
  • Menina dos Olhos Tristes (EP, 1964) [Menina dos Olhos Tristes/Erguem-se Muros/Canção com Lágrimas/Canção do Soldado] Atep 6275
  • Elegia (EP, 1967) [Elegia/Barcas Novas/Pátria/Pescador do Rio Triste] Atep 6175
  • Adriano Correia de Oliveira (EP, 1968) [Para que Quero Eu Olhos/Canção da Terceira/Sou Barco/Exílio] Atep 6197
  • Rosa de Sangue (EP, Orfeu, 1968) Atep 6237
  • Cantar de Emigração (EP, Orfeu, 1971) Atep 6400
  • Trova do Vento Que Passa n.º2 (EP, Orfeu, 1971) Atep 6374
  • Lágrima de Preta (EP, Orfeu, 1972) Atep 6434
  • Batalha de Alcácer-Quibir (EP, Orfeu, 1972) Atep 6457
  • O Senhor Morgado (EP, Orfeu, 1973) Atep 6542
  • A Vila de Alvito (EP, Orfeu, 1974) Atep 6588
  • Para Rosalía (EP, Orfeu, 1976) Atep 6604
  • Notícias de Abril (Single, Orfeu, 1978) [Se Vossa Excelência.../Em Trás-os-Montes à Tarde] KSAT 633

 

 

Trova do Vento que Passa

 

 

Pergunto ao vento que passa

Notícias do meu país

E o vento cala a desgraça

O vento nada me diz.

O vento nada me diz.

La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la,

La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la.

La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la,

La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la.

Pergunto aos rios que levam

Tanto sonho à flor das águas

E os rios não me sossegam

Levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas

Ai rios do meu país

Minha pátria à flor das águas

Para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas

Pede notícias e diz

Ao trevo de quatro folhas

Que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa

Por que vai de olhos no chão.

Silêncio -- é tudo o que tem

Quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos

Direitos e ao céu voltados.

E a quem gosta de ter amos

Vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada

Ninguém diz nada de novo.

Vi minha pátria pregada

Nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem

Dos rios que vão pró mar

Como quem ama a viagem

Mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir

(Minha pátria à flor das águas)

Vi minha pátria florir

(Verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada

E fale pátria em teu nome.

Eu vi-te crucificada

Nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada

Só o silêncio persiste.

Vi minha pátria parada

à Beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo

Se notícias vou pedindo

Nas mãos vazias do povo

Vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro

Dos homens do meu país.

Peço notícias ao vento

E o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo

Liberdade quatro sílabas.

Não sabem ler é verdade

Aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia

Dentro da própria desgraça

Há sempre alguém que semeia

Canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste

Em tempo de servidão

Há sempre alguém que resiste

Há sempre alguém que diz não.

 

Foto de destaque: Festa do Avante