Há momentos na vida democrática em que a política deixa de ser um exercício de governação para se transformar numa sofisticada operação de distração coletiva.

Portugal parece viver precisamente um desses momentos. Nos últimos meses, o debate político foi consumido por temas como alterações à legislação laboral, revisões da lei da nacionalidade, imigração, segurança e identidades culturais.

Assuntos complexos, sensíveis e profundamente fraturantes, apresentados como prioridades nacionais urgentes. Porém, à medida que o ruído aumentava, algo igualmente evidente acontecia: os problemas reais do Governo desapareciam lentamente do centro da discussão pública.

O fenómeno não é novo. A história política internacional mostra que governos fragilizados recorrem frequentemente à criação de temas polarizadores para reorganizar a agenda mediática e emocional das sociedades.

Quando a governação perde capacidade mobilizadora, o conflito passa a ser o principal instrumento político.

Em Portugal, a sucessão de debates inflamados em torno da legislação laboral ou da nacionalidade parece cumprir exatamente essa função. Durante meses, o país discutiu propostas cuja viabilidade política era duvidosa desde o primeiro momento. Todos sabiam que muitas dessas alterações dificilmente reuniriam consenso parlamentar ou social. Ainda assim, ocuparam horas intermináveis de televisão, abriram telejornais, incendiaram redes sociais e alimentaram ciclos permanentes de indignação.

Entretanto, temas potencialmente devastadores para a credibilidade do Executivo foram sendo empurrados para as margens da atenção pública.

Casos envolvendo o primeiro-ministro, suspeitas, polémicas políticas, episódios de comunicação desastrosa, contradições governativas e a sucessão de fragilidades ministeriais foram gradualmente absorvidos por uma espuma mediática construída em torno de guerras culturais e conflitos identitários.

O caso Spinoviva, por exemplo, que chegou a levantar sérias interrogações políticas e éticas, desapareceu rapidamente do debate nacional. O mesmo aconteceu com várias polémicas relacionadas com a governação quotidiana. O foco mudou. Mudou depressa. E mudou precisamente para territórios emocionalmente explosivos.

A lógica é relativamente simples: quando a política entra no domínio da emoção identitária, a racionalidade democrática enfraquece. O debate deixa de ser sobre governação, serviços públicos, salários, habitação ou saúde. Passa a ser sobre medo, pertença e indignação permanente.

E é aqui que entra um dos fenómenos mais inquietantes da democracia contemporânea: a normalização do ruído como método de sobrevivência política.

Ao colocar constantemente temas fracturantes no centro da agenda, o Governo consegue vários objetivos simultâneos. Primeiro, ocupa o espaço mediático. Segundo, obriga a oposição a reagir emocionalmente. Terceiro, transfere o debate para terrenos onde a extrema-direita prospera. E quarto, dissolve gradualmente a responsabilização política sobre matérias concretas da governação.

Neste contexto, o crescimento mediático do Chega deixa de ser apenas um fenómeno partidário para se tornar também um instrumento útil dentro do ecossistema político dominante. Quanto maior a tensão social e mediática, maior a capacidade de deslocar a atenção pública para conflitos secundários.

A comunicação social, por sua vez, tem revelado uma preocupante incapacidade de escapar a esta armadilha. Em vez de exercer uma função crítica e investigativa consistente, parte significativa do comentário político limita-se a seguir a agenda do dia, amplificando polémicas instantâneas e reproduzindo ciclos de indignação contínua.

O resultado é um país permanentemente cansado, emocionalmente saturado e politicamente distraído.

Enquanto isso, os problemas estruturais mantêm-se praticamente intocados.

A crise na habitação agrava-se. O Serviço Nacional de Saúde continua sob enorme pressão. A precariedade laboral mantém milhares de jovens sem perspetivas estáveis. Os salários continuam entre os mais baixos da Europa Ocidental. E a sensação de desgaste institucional cresce silenciosamente.

A situação da saúde tornou-se particularmente simbólica desta erosão governativa. A contestação pública à gestão ministerial acumula-se há meses, com urgências encerradas, dificuldades de resposta hospitalar e sinais evidentes de desgaste do SNS. Ainda assim, o debate político parece frequentemente regressar aos mesmos temas identitários que dominam ciclos mediáticos inteiros.

O problema não está apenas nas propostas em si. Democracias saudáveis vivem de debate, divergência e confronto de ideias. O problema surge quando determinados temas são instrumentalizados não para resolver problemas reais, mas para fabricar distrações políticas.

Quando isso acontece, a democracia deixa de funcionar como espaço de resolução coletiva e transforma-se num palco permanente de entretenimento político.

A grande questão talvez seja esta: quantas vezes mais os portugueses aceitarão discutir cortinas de fumo enquanto os problemas fundamentais continuam sem resposta?

Porque uma democracia enfraquece não apenas quando existem maus governos, mas sobretudo quando os cidadãos deixam de distinguir entre governação e encenação.

No fim, o ruído serve quase sempre os mesmos interesses: os de quem precisa desesperadamente que ninguém olhe demasiado tempo para aquilo que realmente importa.

Fontes

“A política baseada no medo e na distração é sempre inimiga da democracia esclarecida.” — Noam Chomsky

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