Nos últimos tempos, assistimos a uma tendência preocupante nos meios de comunicação social portugueses: uma crítica exacerbada e muitas vezes injusta aos treinadores dos três grandes clubes de futebol – Benfica, Porto e Sporting.

Esta atitude, que ultrapassa a análise técnica ou tática, transforma-se frequentemente numa autêntica campanha de descredibilização, alimentada por comentadores e jornalistas que, em vez de fomentar uma discussão construtiva, optam por alimentar o sensacionalismo.

No centro deste vendaval mediático encontra-se, atualmente, o treinador do Sporting Clube de Portugal. A sua competência tem sido colocada em causa não apenas pela comunicação social, mas também por uma ala mais extremista dos próprios adeptos do clube. A narrativa predominante parece ignorar que o sucesso no desporto, como em qualquer área profissional, requer tempo, aprendizagem e, inevitavelmente, a oportunidade de errar.

Ser treinador: uma tarefa monumental

Ser treinador de futebol está longe de ser uma tarefa fácil, e quem pensa o contrário revela uma visão simplista e desinformada. Um treinador não é apenas o responsável por definir estratégias de jogo; ele é, também, um gestor de pessoas, emoções e expectativas, um líder que precisa de tempo para implementar as suas ideias e desenvolver a equipa. Esperar resultados imediatos sem reconhecer os desafios do contexto é, no mínimo, irrealista.

Portugal tem uma história de treinadores que brilharam no estrangeiro, como José Mourinho ou Jorge Jesus, mas nem mesmo estes alcançaram sucesso sem esforço, sem falhas e, sobretudo, sem o apoio e a confiança das estruturas que os rodeavam. O que parece escapar à memória coletiva é que nenhum profissional nasce pronto. Competência é construída com prática, experiência e, sim, com erros.

O caso do Sporting e o papel da comunicação social

No caso do Sporting Clube de Portugal, a escolha do atual treinador não foi aleatória nem improvisada. Ele foi um jogador brilhante, com provas dadas no clube, e certamente não teria sido considerado para a posição mais alta na equipa técnica sem que houvesse reconhecimento do seu potencial. O próprio presidente e o anterior treinador, Rúben Amorim, são testemunhos vivos de que a aposta não foi feita ao acaso.

No entanto, a comunicação social e os adeptos mais extremistas parecem exigir que o treinador atual se transforme, instantaneamente, no salvador da equipa. Ignoram que o Sporting viveu um período extraordinário com Rúben Amorim, um treinador com carisma e competência indiscutíveis, mas que também precisou de tempo e espaço para alcançar o sucesso.

A memória curta leva muitos a esquecer que o futebol é um desporto coletivo onde o adversário também trabalha para vencer. Não é apenas o Sporting que evolui; os seus concorrentes diretos também o fazem. E o sucesso só pode ser construído se os treinadores tiverem espaço para crescer, implementar as suas ideias e superar os desafios.

O bullying disfarçado de crítica

Quando a análise ultrapassa os limites do respeito e se torna perseguição, estamos a entrar no território do bullying. E isto é inaceitável, especialmente vindo de profissionais da comunicação social, que deveriam ter como missão informar, educar e fomentar um debate saudável.

Perseguir um treinador de forma contínua e pública é não só injusto como prejudicial. Este comportamento não só coloca em causa a dignidade de um profissional, como também mina o espírito desportivo e a ética que deveriam prevalecer.

O erro como ferramenta de aprendizagem

Na vida, como no desporto, o erro é uma das ferramentas mais poderosas de aprendizagem. Como disse o filósofo John Dewey: "A falha é instrutiva. A pessoa que realmente pensa aprende tanto com os seus fracassos quanto com os seus sucessos." Negar a um profissional a oportunidade de errar é negar-lhe o direito de aprender, crescer e, eventualmente, triunfar.

Se queremos um futebol português mais forte e competitivo, precisamos de mudar a mentalidade. Precisamos de apoiar os nossos treinadores, oferecer-lhes as condições para evoluir e, acima de tudo, respeitar o seu trabalho.

A comunicação social, em particular, tem uma responsabilidade acrescida neste processo. O que se publica e debate influencia a opinião pública e pode determinar o futuro de um profissional. É tempo de abandonar o sensacionalismo em prol de uma abordagem mais ética e construtiva.

Uma questão de paciência e visão

Ao invés de criticar incessantemente, precisamos de adotar uma postura de paciência e visão de longo prazo. O sucesso não surge do dia para a noite, e é preciso lembrar que mesmo os grandes nomes do futebol mundial enfrentaram desafios semelhantes no início das suas carreiras.

Aos adeptos do Sporting, fica o apelo: deem tempo ao vosso treinador. Lembrem-se de que o clube está numa fase de transição e que é preciso unir forças em vez de criar divisões. Aos jornalistas e comentadores, um pedido: façam do vosso trabalho uma ferramenta de construção, não de destruição.

Porque, no final, todos queremos o mesmo: o sucesso do futebol português, conquistado com ética, respeito e mérito.