Para uns, ela representa a coragem cívica num país marcado por repressão, pobreza e exílio forçado de milhões. Para outros, é a personificação da duplicidade política: uma mulher que, antes de se apresentar como defensora da democracia, foi signatária de um golpe de Estado em 2002, financiada por entidades estrangeiras e envolvida em alianças com forças que atuaram contra o próprio Estado venezuelano.
A história de María Corina Machado está longe de ser linear. No golpe de abril de 2002, assinou o decreto de Pedro Carmona que aboliu a Constituição de 1999 e afastou Hugo Chávez da presidência — um golpe rapidamente revertido pela mobilização popular. Quando confrontada, Machado alegou ter “assinado por engano”, pensando tratar-se de uma lista de presença, argumento que se tornou motivo de ironia e descrédito até entre os seus aliados.
Posteriormente, foi acusada de receber fundos do National Endowment for Democracy (NED), órgão frequentemente apontado como instrumento de influência política de Washington. O episódio reforçou a narrativa de que a sua militância estaria mais próxima de interesses externos do que da soberania venezuelana.
Eleita deputada em 2010, Machado defendeu com fervor a posse venezuelana sobre o território de Essequibo, acusando Chávez de ser submisso à Guiana — curiosamente, uma bandeira hoje empunhada por Nicolás Maduro. Pouco depois, foi destituída do cargo por violar os artigos 149 e 191 da Constituição, ao representar ilegalmente o país junto da Organização dos Estados Americanos (OEA).
Ainda assim, pôde concorrer às presidenciais de 2012, obtendo apenas 3% dos votos válidos. Dois anos mais tarde, foi novamente acusada de conspiração e associação criminosa numa tentativa frustrada de sublevação contra Maduro. Desde então, a sua relação com a própria oposição tem sido marcada por distanciamento e desconfiança.
Apesar das múltiplas condenações e da sua inabilitação política por apoiar sanções económicas contra a Venezuela, Machado reapareceu como símbolo de resistência após as eleições de 2024, quando apoiou o candidato Edmundo González Urrutia. O movimento de oposição unificado e a vigilância popular das urnas foram destacados pelo Comité Nobel como exemplo de “transição pacífica e democrática”.
O comunicado oficial do Nobel da Paz descreve-a como “uma das mais extraordinárias figuras de coragem civil na América Latina”, exaltando o seu papel em promover os direitos democráticos e a luta pacífica contra o autoritarismo.
Na Venezuela, a notícia dividiu os media. Enquanto veículos como El Nacional e La Patilla celebraram o prémio como “um reconhecimento à coragem feminina”, outros, como Últimas Noticias e Tane Tanae, chamaram-lhe “o Nobel à promotora da guerra” e “símbolo da degeneração moral da política ocidental”.
Nos Estados Unidos, a Casa Branca expressou desconforto com a escolha, defendendo que Donald Trump — também indicado — seria o verdadeiro merecedor do galardão. A ativista norte-americana Laura Loomer classificou a decisão como “patética”, afirmando que premiar uma opositora venezuelana em detrimento de um ex-presidente americano era “um insulto aos heróis da liberdade”.
A atribuição do Nobel a María Corina Machado evidencia a complexidade do cenário geopolítico atual, em que a noção de “paz” é frequentemente usada como instrumento político. O contraste entre o seu passado golpista e a atual consagração internacional levanta uma questão incontornável:
pode a democracia ser representada por quem um dia tentou derrubá-la?
Entre o reconhecimento e a ironia, o Prémio Nobel da Paz de 2025 não apenas coroou uma figura polémica — reacendeu o debate sobre o verdadeiro significado da paz e da legitimidade política em tempos de polarização global.