Em Pemba, capital da província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, as ruas escurecem mais cedo do que o sol permite. As portas fecham-se por dentro. E os maridos são, por determinação das esposas, mantidos em casa.

O motivo: o medo de um hipotético feitiço capaz de "roubar" os órgãos genitais masculinos através de um simples toque.

Não há provas. Não há registos médicos. Não há qualquer evidência factual que sustente o rumor. Mas a ausência de prova nunca foi obstáculo suficiente para travar o avanço do medo, especialmente quando esse medo se alimenta de feridas históricas, vulnerabilidade social e décadas de conflito armado que deixaram a população desta região entre as mais traumatizadas do continente africano.

"A ausência de prova nunca foi obstáculo suficiente para travar o avanço do medo, especialmente quando esse medo se alimenta de feridas históricas."

Da suspeição à violência

O que começou como rumor de mercado transformou-se rapidamente num fenómeno de psicose coletiva. Mulheres trancam os companheiros em casa por receio de que o contacto físico com estranhos, um aperto de mão, um roçar de braços na multidão, seja suficiente para desencadear a suposta magia negra. O isolamento das famílias tornou-se uma estratégia de sobrevivência simbólica.

Mas a psicose não se ficou pela clausura doméstica. A desconfiança extravasou para as ruas e instalou-se no espaço público com consequências trágicas. Um idoso foi espancado até à morte por uma multidão que o acusou de ser o responsável pela alegada feitiçaria. A violência justiceira — destituída de qualquer processo legal ou investigação — revelou o estado de desintegração da confiança social na província.

No mercado central de Pemba, esta terça-feira, a Polícia da República de Moçambique (PRM) foi forçada a intervir para resgatar um homem que estava prestes a ser linchado sob as mesmas acusações. O momento foi captado em vídeo pelo canal "O Daniel" e rapidamente circulou nas redes sociais, amplificando ainda mais o clima de instabilidade.

A anatomia de uma psicose coletiva

Este fenómeno não é novo nem exclusivo de Moçambique. A literatura científica regista episódios semelhantes em vários países da África Subsaariana, designados frequentemente por "koro", um síndrome de pânico ligado ao medo de retração ou desaparecimento dos genitais. Em todos os casos documentados, o mecanismo é idêntico: o rumor cria a realidade percebida, e a realidade percebida gera comportamentos reais com consequências físicas e sociais concretas.

Em Cabo Delgado, uma região devastada pelo conflito armado jihadista que desloca populações desde 2017, o terreno emocional e social é particularmente fértil para este tipo de contágio psicológico. A insegurança crónica, a desestruturação das comunidades, a pobreza extrema e a desconfiança nas instituições criam um ecossistema onde o irracional se torna plausível.

 

 

 

 



O medo como arma de desordem pública

As autoridades provinciais e as forças de segurança enfrentam agora um duplo desafio: conter a violência imediata e desconstruir a narrativa do medo antes que produza novas vítimas. A experiência internacional neste tipo de episódios demonstra que a resposta policial isolada é insuficiente. É necessária uma intervenção que combine comunicação comunitária, mediação cultural e envolvimento de líderes religiosos e tradicionais que gozem de credibilidade junto da população.

A ironia trágica desta situação é que o verdadeiro perigo não é nenhum feiticeiro. É o medo em si, a sua capacidade de transformar vizinhos em suspeitos, de substituir a lei pelo instinto de manada e de matar inocentes em nome de uma ameaça que nunca existiu.

Contexto

Cabo Delgado é a província mais a norte de Moçambique, fronteiriça com a Tanzânia. Desde 2017 é palco de um conflito armado de grupos jihadistas que já deslocou mais de um milhão de pessoas e ceifou milhares de vidas. A instabilidade crónica criou condições de extrema vulnerabilidade social e psicológica nas comunidades locais.

Fontes: relatos verificados no terreno, canal "O Daniel" (vídeo), PRM — Polícia da República de Moçambique. Este artigo não reproduz nem valida as crenças descritas, que carecem de qualquer fundamento factual ou científico.