O PAICV elegeu 37 deputados, o MPD ficou com 33 e a UCID conquistou 2 - uma composição que confere ao partido vencedor uma maioria absoluta na Assembleia Nacional, desenhada apenas nos últimos momentos da contagem, com a divulgação dos resultados do círculo eleitoral das Américas.
Francisco Carvalho será o próximo Primeiro-Ministro de Cabo Verde.
O apuramento desta noite não foi para cardíacos. Pelas 23h15, hora local, com 97% das mesas de voto apuradas e sete deputados por distribuir, o PAICV tinha 33 lugares assegurados no parlamento, o MPD 30 e a UCID dois. A maioria absoluta - fixada nos 37 deputados - estava ainda em aberto. Foi necessário aguardar pelos resultados da diáspora, nomeadamente das Américas, para que o quadro final se definisse.
O coordenador nacional da campanha do MPD, Rui Figueiredo Soares, foi a primeira voz a ouvir-se na noite de contagem dos votos, anunciando que a força política não teria "atingido os objetivos", acrescentando que o partido respeitaria escrupulosamente os resultados finais. Do lado oposto da cidade da Praia, centenas de apoiantes do PAICV, com carros, bandeiras e buzinas, aguardavam por uma declaração de Francisco Carvalho.
Se compararmos os dados com as últimas legislativas de 2021, o PAICV conquista mais 7 mandatos, o MPD perde 4 e a UCID perde 2. É uma oscilação aparentemente modesta em termos absolutos, mas de enorme significado político: representa uma transferência de poder limpa, pacífica e inequívoca, num sistema onde a margem entre maioria e oposição é sempre estreita.
Há, porém, um dado que não pode ser ignorado e que merece reflexão séria: a taxa de abstenção foi de 53,3%, a mais elevada de sempre no país, superando em 10 pontos percentuais a registada nas eleições de 2021. Mais de metade do eleitorado cabo-verdiano optou por não exercer o seu direito de voto. É um sinal de alarme que qualquer governação responsável deve levar a sério - não como derrota da democracia, mas como aviso de que ela precisa de se renovar continuamente para manter a confiança dos cidadãos.
Na sequência dos resultados eleitorais, Ulisses Correia e Silva assumiu a responsabilidade dos resultados e apresentou a sua demissão da liderança do partido, para "abrir caminho a uma nova liderança", afirmando que "aceita com naturalidade os resultados porque eles refletem um processo democrático".
É um gesto que diz muito sobre a cultura política cabo-verdiana. Num continente onde a saída do poder é frequentemente dramática, o líder derrotado demite-se, agradece e cede espaço. A democracia funciona, e funciona bem.
Francisco Carvalho, na sua declaração de vitória, agradeceu aos cabo-verdianos pela "maioria absoluta" e prometeu "um novo Cabo Verde". É uma formulação que carrega simultaneamente esperança e responsabilidade: quem pede o voto em nome da mudança deve, no momento em que a conquista, estar preparado para a concretizar.
A trajetória de Carvalho é, em si mesma, uma narrativa de credibilidade progressivamente acumulada. Presidente da Câmara Municipal da Praia desde as autárquicas de 2024, onde venceu com 62% dos votos, eleito presidente do PAICV em maio de 2025, liderou uma campanha centrada em três eixos fundamentais: emprego, saúde gratuita no ensino superior e melhoria dos transportes inter-ilhas — as feridas mais antigas de um arquipélago onde a mobilidade entre ilhas continua cara e desigual.
A vitória do PAICV não é apenas a alternância de um partido por outro. É o retorno de uma força política ao poder depois de uma década de oposição, durante a qual aprendeu, renovou lideranças, reconstruiu propostas e recuperou a confiança de uma maioria de eleitores que decidiu que era tempo de virar página.
Para Cabo Verde, o resultado reafirma aquilo que o mundo já reconhece neste pequeno arquipélago atlântico: a capacidade de gerir o poder e a sua transferência com a serenidade que só as democracias verdadeiramente maduras conseguem. Sem petróleo, sem diamantes, mas com instituições que funcionam e cidadãos que, mesmo quando se abstêm, o fazem num sistema que os protege e que respeita a sua escolha.
O novo ciclo começa. E com ele, a responsabilidade de provar que a promessa de um novo Cabo Verde não é apenas retórica eleitoral — mas um projeto concreto, executável e à altura da confiança que lhe foi depositada.
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