"Uma organização europeia não deve pedir que o direito internacional e o estado de direito sejam respeitados, deve exigir", salientou a socialista, e que a declaração do Governo português nao a põe "minimamente orgulhosa enquanto portuguesa".
Para Alexandra Leitão, "a declaração conjunta do governo espanhol com alguns países da América do Sul" foi muito mais adequada ao momento. Talvez porque estes "países estão todos na lista. Não há ninguém a salvo neste momento".
A vereadora lisboeta lembrou ainda que "os fins não justificam os meios".
"O regime de Maduro é uma ditadura e como tal condenável e é ótimo que mude. Dito isto, nada do que aconteceu nos últimos dois dias não tem nada a ver com isso. Não foi esta a motivação dos EUA. Aliás, é verdade que esta é uma nova fase, mas também é verdade que, os EUA têm cadastro com a América do Sul. Nunca foi uma democracia o que motivou os americanos quando atuaram na América do Sul. Nunca foi a democracia que os motivou a agir naquilo que eles querem que seja o seu quintal", atirou.
Assim, apesar de reconhecer que "Maduro é um ditador" e que os "venezuelanos têm direito à democracia", na opinião de Alexandra Leitão a ação dos EUA "não tem nada a ver com isso".
Tem "a ver com petróleo, com recursos naturais que passarão para o controlo dos EUA" e Donald Trump disse isso mesmo "sem dourar a pílula, sem pudor, na conferência de imprensa absolutamente inarrável que assistimos".
"A forma como ele afastou Corina Machado, como disse que a vice-presidente da Venezuela podia manter-se, desde que fosse complacente com os interesses americanos, mostra isso mesmo. Eles [EUA] não querem mudar o regime. Se quisessem mudar o regime não queriam que lá ficasse a vice-presidente", recordou ainda Alexandra Leitão.
O que há de novo agora é que "a decência do país mais poderoso do mundo acabou" e "não sabemos o que vai acontecer amanhã".
"Amanhã pode ser o México, pode ser Cuba e pode ser a Gronelândia, a Colômbia. Nada está seguro. Não há uma nova ordem internacional. Há uma desordem internacional. E isto é muito problemático. Voltando às reações, por exemplo, do presidente Macron, que enaltecem a parte boa que é ter deposto um ditador. Não, não vale tudo. Porque é que não se interveio até agora em Gaza, onde morrem crianças todos os dias e onde ainda agora proibiram novamente a entrada de organizações humanitárias? Um país pode entrar à força noutro país para capturar o seu líder – ainda que ilegítimo – completamente à margem da carta das Nações Unidas? Isso é um ato de uso da força injustificado e não haver uma palavra mais forte da parte da UE é algo que me perturba muito", sublinhou a antiga ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública.
Antes de concluir a sua análise à operação estadunidense , Alexandra Leitão recordou ainda que "noutros períodos da história do mundo fomos vendo as coisas a acontecer atrás uma das outras e as linhas da tolerância a serem alargadas".
"Na Segunda Guerra Mundial só quando invadiram a Polónia é que o Reino Unido e a França perceberam que havia algo muito errado a acontecer", exemplificou, perguntando se só quando a Gronelândia for invadida é que o mundo vai perceber "que não estamos a falar de ficção".