Num tempo em que a política é avaliada por ideologias, propostas e debates acesos, que lugar pode ocupar um simples nome? Talvez mais do que se pensa.

Ainda que seja apenas uma curiosidade histórica ou cultural, a origem dos nomes dos líderes partidários em Portugal guarda ecos de linhagens nobres, raízes medievais, lendas locais e significados insuspeitos que, num outro registo, revelam a riqueza da nossa herança onomástica. Brinquemos, pois, com os nomes — sem lhes atribuir mais peso do que aquele que um sorriso cúmplice pode carregar.

Pedro Nuno SantosO filho de Todos os Santos

O líder do Partido Socialista carrega consigo um nome que remonta à tradição ibero-cristã. "Santos" era, em tempos idos, dado aos nascidos no Dia de Todos os Santos — uma homenagem sagrada e coletiva. A origem nobre do nome indicava devoção e ligação espiritual a esse dia de memória e fé.

Luís MontenegroO senhor da torre galega

O apelido "Montenegro" transporta-nos para a Galiza espanhola, onde, segundo os registos históricos, vivia Álvaro Lopes de Montenegro, senhor da torre com o mesmo nome. Dali, a família tomou o apelido. Um nome forte, de raiz toponímica, que evoca altivez e ancestralidade guerreira.

Nuno MeloO melro de Riba de Vizela

O sobrenome "Melo" teria origem no cavaleiro Soeiro Raimundes de Riba de Vizela, apelidado de "o Melro". A nobreza medieval portuguesa está presente aqui, com o nome a evoluir para a designação de famílias de prestígio, intimamente ligadas à história do norte do país.

Rui TavaresO senhorio de Tavares

Historiadores referem que o primeiro portador do nome "Tavares" terá sido D. Pedro Viegas, nobre que se tornou senhor da região homónima. Um nome de origem portuguesa, territorial, como tantos apelidos nobres que perpetuavam a ligação da família à terra que governavam.

Mariana MortáguaDas águas mortas à fertilidade da terra

Reza uma lenda que, onde hoje se ergue Mortágua, existia um lago de 5 quilómetros quadrados. Terão sido os Mouros — ou talvez os Romanos — a abrir uma brecha nas rochas e a drenar a água. A terra assim libertada tornou-se fértil e habitável. Mortágua, ou “água morta”, é um nome que carrega uma transformação lendária.

Paulo RaimundoO sábio protetor germânico

"Raimundo" tem raízes germânicas e significa “aquele que protege com conselhos” ou “sábio protetor”. Um nome que evoca liderança pela sabedoria e proteção pela palavra — traços desejáveis num tempo em que a política exige ponderação e orientação ética.

Inês Sousa RealA realeza do latim

A conjugação de "Sousa", um dos apelidos mais antigos e distintos da nobreza portuguesa, com "Real", evoca diretamente o universo régio. De origem latina, este nome remete-nos para uma linhagem de poder simbólico e estatuto elevado.

André VenturaDa sorte ao destino

Por fim, "Ventura" foi usado como nome próprio entre os séculos XI e XII em Itália, associado ao conceito de sorte, destino ou fortuna. Em português, ganhou o duplo significado de aventura e desígnio — uma escolha invulgar e repleta de conotações.

 

Se é verdade que o essencial em política são as ideias, os valores e a capacidade de liderança, não deixa de ser saborosamente curioso perceber que até os nomes que hoje dominam o debate público trazem em si vestígios de histórias nobres, lendárias ou espirituais.

No jogo da política, como na vida, talvez valha a pena lembrar as palavras de José Saramago:
"Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir."

E no nome, habita também essa memória.

 

Fontes e Referências:

  • José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa

  • "Origem e significado dos apelidos portugueses", Instituto dos Registos e Notariado

  • Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa – João Malaca Casteleiro

  • Arquivo Nacional da Torre do Tombo

  • Antroponímia portuguesa e galega – Universidade de Santiago de Compostela

  • Lenda da fundação de Mortágua (Município de Mortágua)

  • Etimologia de Raimundo (Behind the Name)