O seu trabalho procurou sempre a reflexão sobre o ser humano a partir de dados científicos, promovendo a epistemologia como a verdadeira ciência global da humanidade.

Assumia-se um "caçador de conhecimento", e recusou sempre a fragmentação do saber, em favor de uma visão cultural e científica multidisciplinar, para entender a "complexidade do real".

Era considerado por muitos dos seus pares como um "pensador planetário", que procurou, através do conceito de "pensamento complexo", conectar o que na "perceção habitual não está ligado".

Para Edgar Morin quanto mais graves eram os riscos de crise, maiores eram as hipóteses de encontrar soluções, e apresentava-se como um"optipessimista", explicando: "Tenho esperança num contexto de desesperança."

À  TSF, o administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, Guilherme d'Oliveira Martins, recordou a "preocupação muito grande" de Edgar Morin relativamente aos "acontecimentos e à importância que a participação das pessoas tinha na construção da própria sociedade e da democracia".

"E, por isso, Edgar Morin, na sua última vontade, já com 104 anos, com entusiasmo extraordinário - porque ele esteve há pouco mais de um ano em Portugal a conduzir uma conferência sem quaisquer notas e com uma lucidez absolutamente extraordinária, compreendendo aquilo que é, afinal, hoje, o desafio de uma situação de guerra em que a própria liberdade e a própria autonomia humana podem estar em causa", destacou.

Guilherme d'Oliveira Martins apontou ainda que o filósofo confessou a vontade de passar os seus "últimos dias" em Portugal, um país com que manteve uma "relação muito próxima", depois de, nos anos 60, ter estado com António Alçada Batista em Paris, para garantir o "acompanhamento a par e passo relativamente à transição e à construção da democracia"…. enfim…

"Edgar Morin considerava que o exemplo português é o exemplo atualíssimo e ainda hoje mais atual do que nunca, quando no horizonte há nuvens um pouco estranhas relativamente à liberdade do pensamento, que Edgar Morin considerava essencial", sustentou.

Nascido filho único a 8 de julho de 1921 em Paris, numa família judia originária de Salónica, na Grécia, Edgar Nahoum aderiu em 1941 ao Partido Comunista e integrou a Resistência sob o pseudónimo de Morin, apelido que passou a usar como autor.

Entrou em rutura com o comunismo em 1959, tendo escrito a obra "Autocrítica", muito dura para o partido comunista francês, as intervenções soviéticas e os erros políticos.

Precursor da "sociologia do presente", interessou-se por fenómenos pouco estudados pela sociologia como o cinema, novas tecnologias ou desporto.

No quinto volume da sua obra-prima, "O Método", escreve: "Quanto mais conhecemos o ser humano, menos o compreendemos. As dissociações entre disciplinas fragmentam-no, esvaziam-no de vida, de carne, de complexidade e certas ciências consideradas humanas esvaziam mesmo a noção de homem."

À Lusa, numa das suas visitas a Portugal, Morin defendeu a riqueza da multiculturalidade, incluindo de uma lusofonia variada e extensa.

Portugal é "um país extraordinário, que é atlântico e mediterrâneo ao mesmo tempo, ibérico e com ligação ao resto do planeta, com uma vitalidade e convivialidade e cordialidade extraordinária", afirmou.