Permanecem ainda cinco pessoas desaparecidas: três em Juiz de Fora e duas em Ubá. As equipas de busca continuam mobilizadas em três frentes operacionais, numa corrida contra o tempo para localizar sobreviventes.
Juiz de Fora foi o município mais severamente atingido pelas chuvas intensas entre segunda-feira (23) e terça-feira (24). Na noite de quarta-feira, novos temporais agravaram um cenário já crítico, provocando mais deslizamentos de terra e alagamentos generalizados.
O Hospital de Pronto Socorro, uma das principais unidades de saúde da cidade, teve o subsolo completamente inundado, comprometendo parte das operações. Vias estratégicas ficaram bloqueadas, dificultando o acesso a bairros inteiros e a circulação de serviços essenciais.
O rio Paraibuna atingiu quatro metros acima do nível habitual, levando a autarquia a emitir alertas para que a população evitasse áreas ribeirinhas. Na noite de quinta-feira, por recomendação da Defesa Civil, foi interditado um troço da Avenida Presidente Itamar Franco, importante ligação ao bairro Dom Bosco, também afetado por deslizamentos. A medida foi adotada de forma preventiva face ao risco iminente de novos desmoronamentos.
Perante a dimensão dos danos, o município decretou estado de calamidade pública ainda na terça-feira.
Os dados oficiais revelam um problema estrutural que vai além da meteorologia extrema. Juiz de Fora é atualmente a quarta cidade brasileira com maior número de alertas da Defesa Civil em 2026, somando 35 ocorrências desde o início do ano. Mais grave ainda: lidera o ranking nacional de população residente em áreas de risco, com cerca de 128 mil pessoas a viverem em zonas vulneráveis a desastres naturais.
A Zona da Mata mineira é historicamente suscetível a deslizamentos devido ao relevo acidentado, ocupação irregular de encostas e drenagem urbana insuficiente. Especialistas em gestão de risco e ordenamento territorial alertam que o crescimento urbano desordenado, aliado à intensificação de eventos climáticos extremos, amplia exponencialmente o impacto humano das chuvas.
Moradores relataram ter recebido alertas da Defesa Civil pouco antes dos temporais, mas muitos afirmam não ter recebido formação prática sobre como agir em situações de emergência. A falta de preparação comunitária e de planos de evacuação eficazes surge agora como um dos pontos críticos a rever.
O episódio reacende o debate sobre políticas públicas de prevenção, requalificação urbana e educação para o risco. A gestão de desastres não se limita à resposta imediata, exige planeamento, investimento em infraestruturas resilientes e capacitação da população.
Enquanto as buscas continuam, Minas Gerais enfrenta mais um capítulo doloroso da sua história recente marcada por eventos extremos. A reconstrução exigirá não apenas recursos financeiros, mas sobretudo decisões estruturais capazes de reduzir a exposição de milhares de famílias a futuros desastres.
Corpo de Bombeiros de Minas Gerais – boletins oficiais
Defesa Civil de Juiz de Fora
Prefeitura de Juiz de Fora
Dados de monitorização hidrológica do rio Paraibuna (órgãos municipais e estaduais)