Em São Bento, Lula reuniu-se com o primeiro-ministro Luís Montenegro. Em Belém, encontrou-se com o Presidente da República António José Seguro, na primeira reunião oficial entre ambos desde a tomada de posse de março de 2026.
Nos palácios, tudo correu com a solenidade esperada. Mas foi fora dos palácios que a visita ganhou o seu significado mais profundo.
Junto ao Palácio de Belém, dois mundos coexistiram no mesmo espaço — e não se reconheceram.
De um lado, uma concentração pacífica de centenas de cidadãos brasileiros, portugueses, angolanos e lusodescendentes, unidos por uma visão de cooperação, democracia e diálogo entre continentes. Do outro, uma manifestação convocada pelo Chega, ecoando uma narrativa de hostilidade que se tem tornado, com preocupante naturalidade, parte da paisagem política europeia.
O que perturbou não foi a divergência em si. A divergência é oxigénio da democracia. O que perturbou foi a assimetria na forma como essa divergência foi lida, tratada e tolerada. Quando a agressividade simbólica da extrema-direita se banaliza no espaço público enquanto a mobilização democrática é observada com excesso de suspeita, deixamos de ter apenas um problema de ordem pública. Temos um problema de cultura cívica.
A deslocação a Lisboa não nasceu em Lisboa. Dias antes, em Barcelona, Lula encerrou a primeira Mobilização Progressista Global, um encontro internacional que reuniu líderes e movimentos comprometidos com a democracia social, o combate à extrema-direita e a construção de alternativas ao populismo autoritário que avança em vários quadrantes do mundo.
Nesse contexto, a visita a Portugal ganha uma dimensão que vai além do protocolo. Lula não veio apenas afinar relações bilaterais. Veio também afirmar que Portugal pode e deve ser, uma peça estratégica na rearticulação progressista do espaço atlântico.
A ideia é clara: Portugal como porta de entrada do Brasil na União Europeia. Como interlocutor privilegiado nas negociações do acordo Mercosul-UE. Como parceiro em ciência, tecnologia, inovação, imigração e cooperação económica. O próprio Lula o disse em Lisboa: a relação entre os dois países vive "o melhor momento". Resta saber se estamos à altura de aproveitar esse momento.
Há uma leitura superficial desta visita e há uma leitura estratégica. A leitura superficial vê protocolos, discursos, apertos de mão e fotografias oficiais.A leitura estratégica vê algo mais inquietante e mais estimulante: dois países a negociar a sua posição num mundo que está a ser redesenhado.
Um Brasil que procura reafirmar a sua relevância geopolítica depois de anos de isolamento. Um Portugal que tem de decidir se quer ser apenas um destino turístico de luxo ou também um centro de gravidade político e económico na relação entre a Europa e o Atlântico Sul.
E, no meio desse xadrez global, uma rua onde cidadãos comuns, com bandeiras, vozes e histórias, tentavam dizer algo sobre quem somos e quem queremos ser.
Hannah Arendt escreveu que "o sentido da política é a liberdade". Não a liberdade abstracta dos discursos, mas a liberdade concreta de poder aparecer no espaço público sem ser tratado como suspeito pela cor das ideias que defende.
O que se passou em Belém foi precisamente isso: uma metáfora política. Quando a liberdade democrática de uns é tratada com reserva e a intolerância de outros circula com inquietante à-vontade, a democracia não está apenas sob pressão externa. Está a ser testada por dentro.
E é aí, nesse teste silencioso que acontece na rua, longe das câmeras oficiais, que se decide, dia após dia, que democracia somos capazes de ser.
Como disse Rosa Luxemburg: "A liberdade é sempre a liberdade de quem pensa de modo diferente."
Talvez seja essa a pergunta que Lisboa ficou a dever responder.
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