Antes que o seu caixão desse entrada na Câmara de incineramento no Cemitério de S. Martinho, eu tive a oportunidade de fotografar algumas fotos ali expostas com o meu telemóvel, para recordação ou seja para memória futura.
Uma delas me chamou particularmente a atenção. Foi a foto da sua avó paterna a senhora Rosa do "abruinho" e seu marido o sr. João do "rato". (nesse tempo as pessoas de Santa Cruz eram mais conhecidas pelo alcunhas do que pelos seus nomes verdadeiros de baptismo) O casal era agricultor e tinha uma família numerosa. Eram agricultores e trabalhavam muitos "poios" agrícolas juntamente com os filhos (ali todos trabalhavam porque a vida do campo era muito dolorosa e difícil nesse tempo), criavam duas vacas de leite e vendiam o mesmo, à fábrica Burnay que usava as natas daí extraídas e pagas aos agricultores, para confecionar manteiga. Daí vinha o principal sustento da sua família.
A minha mãe mandava-me juntamente com a minha irmã Maria José, todos os dias à casa da senhora Rosa do "abruinho" buscar leite (que a minha mãe pagava por mês). Íamos sempre descalços, pois os sapatos que tinhamos só eram calçados no Sábado para nós irmos à "pregação" da Igreja Adventista do Sétimo Dia em Santa Cruz. («pregação» era o nome que se dava à chamada "missa" dos adventistas nessa altura)
Quando chegávamos à casa da senhora Rosa do "abruinho" ela era muito solidária connosco e como amassava todas as semanas "pão de casa" no forno caseiro, arranjava logo dois pãezinhos pequenos chamados "merendeiros" abria ao meio e colocava manteiga e deitava bacalhau no meio e dava-nos, para nós comermos.
A senhora Rosa era muito caridosa e tinha pena de nós, pois sabia que a minha mãe tinha dificuldades em nos alimentar. Nessa altura o meu pai estava no hospital dos Marmeleiros a convalescer de ferimentos de um acidente num autocarro da SAM, conduzido pelo sr. Alvarinho, em Gaula no ano de 1957 (que morreu no trágico acidente). O meu pai esteve lá no supracitado Hospital, sete meses e meio a se tratar de uma fractura na coluna vertebral e outra no crâneo. ( O médico dr. Américo Durão que operou o meu pai nessa altura dizia à minha mãe, que de acidentes como aquele que o meu pai teve, eram mil casos para escapar um. Foi um milagre!) Eu na altura quando ia á casa da senhora Rosa do "abruinho" tinha apenas 6 anos e a minha irmã Maria José linha 3 anitos .
Eu levava ela sempre pela mão com cuidado para ela não cair dentro da levada (nunca mais me esqueci). Íamos sempre descalços e adoravamos comer pão com bacalhau no chamado «pão de casa amassado com batata doce» quentinho saido do forno:
Ai que saudades eu tenho da senhora Rosa do "abruinho" e do sr. João do "rato" avós paternos da minha querida amiga Zita Cardoso!
Bem dizia o apóstolo S. João no seu Livro do Apocalipse:
«Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem dos seus trabalhos, e as suas obras os sigam» Apoc. 14:13.
Na verdade as boas obras das pessoas cristãs e cumpridoras das palavras de Jesus Nazareno, são sempre lembradas após a sua morte física . O corpo na verdade se desfaz, desaparece e volta ao pó, mas as boas obras permanecem por gerações e no Livro da Vida Eterna de Jesus Cristo o nosso Salvador!
Bem hajam!
A senhora Rosa do "abruinho" e seu saudoso marido cumpriram as palvras de Jesus no Santo Evangelho que diz assim:
«E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes.» S.Mat.25.40
Moral da breve história:
A minha pequenina irmã e eu, eramos «um destes pequeninos irmãos» de que falava Jesus o Mestre aos seus discípulos.