Num gesto simultaneamente simbólico, provocador e ambientalmente sugestivo, o presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais, voltou a colocar o debate sobre a gestão do espaço público no centro da agenda mediática.

Desta vez, através de um vídeo publicado nas redes sociais, onde surge a passear uma cabra com trela, o autarca lançou críticas diretas à alegada falta de manutenção da Avenida Marginal por parte da Infraestruturas de Portugal (IP).

No vídeo divulgado na quarta-feira, 20 de maio, Isaltino Morais surge junto ao Lagoas Park, em Oeiras, acompanhado por uma cabra, afirmando em tom irónico:

“Esta cabrinha está aqui no Lagoas Parque, mas é para eu levar para a Marginal, para ela comer as ervas que a Infraestruturas de Portugal não é capaz de limpar.”

A mensagem, apesar do tom descontraído, transporta uma crítica política clara. O autarca lamenta o estado de conservação da Avenida Marginal, uma das principais vias costeiras da Área Metropolitana de Lisboa, cuja gestão permanece sob responsabilidade da Infraestruturas de Portugal.

“A cabra vai comer as ervas todas. Está encontrada a solução”, acrescenta no vídeo, terminando com um comentário que revela uma reivindicação antiga do município: “Nunca mais passa para a Câmara Municipal a Marginal”.

Humor político ou recado institucional?

A iniciativa rapidamente ganhou destaque nas redes sociais e nos meios de comunicação, dividindo opiniões entre quem a considera uma forma inteligente de chamar a atenção para um problema real e quem vê no episódio um exercício de populismo mediático.

Na descrição do vídeo, a autarquia reforça o tom irónico, escrevendo:

“Oeiras substitui-se à Infraestruturas de Portugal e aposta em Roçadoras Biológicas para resolver a falta de manutenção da Marginal.”

A expressão “roçadoras biológicas” não é nova no debate ambiental. Em vários países europeus, incluindo Portugal, municípios e entidades públicas têm vindo a experimentar soluções de pastoreio controlado com cabras e ovelhas para limpeza de terrenos, sobretudo em zonas de difícil acesso ou suscetíveis a incêndios.

Cabras como solução ecológica? Não é assim tão estranho

Embora possa soar caricata, a proposta tem fundamento ambiental. O chamado “ecopastoreio” ou pastoreio dirigido é uma prática utilizada para controlo natural de vegetação invasora e redução de combustível florestal, ajudando na prevenção de incêndios e diminuindo o uso de maquinaria pesada ou herbicidas.

Em Portugal, municípios como Matosinhos, Vila Nova de Gaia e várias autarquias do interior já recorreram a rebanhos para limpeza de terrenos municipais e espaços verdes. Em países como a França, Espanha e os Estados Unidos, o método é usado inclusive junto a infraestruturas urbanas e taludes ferroviários.

No entanto, no caso de Oeiras, o objetivo parece ter sido sobretudo político e comunicacional: pressionar a Infraestruturas de Portugal a intervir na limpeza da Avenida Marginal e reacender a discussão sobre a eventual transferência da sua gestão para o município.

A eterna disputa pela Marginal

A Avenida Marginal, oficialmente designada EN6, é uma das vias mais emblemáticas da região de Lisboa, ligando a capital a Cascais ao longo da frente ribeirinha. Apesar da sua importância local, a gestão continua centralizada na Infraestruturas de Portugal, algo que vários autarcas têm criticado ao longo dos anos, alegando lentidão nos processos de manutenção, limpeza e requalificação.

A posição de Isaltino Morais não é inédita. O presidente da Câmara de Oeiras tem defendido, em diferentes ocasiões, uma maior autonomia municipal sobre infraestruturas consideradas estratégicas para o concelho, argumentando que a proximidade da gestão permitiria respostas mais rápidas e eficientes.

Entre uma crítica séria e um momento de comunicação política bem calculada, a verdade é que as “cabrinhas da Marginal” conseguiram aquilo que muitas notas institucionais não conseguem: colocar o tema na agenda pública.

Como escreveu o dramaturgo irlandês George Bernard Shaw:

“Se queres dizer a verdade às pessoas, faze-as rir, caso contrário matam-te.”

Fontes e referências:

Infraestruturas de Portugal
Câmara Municipal de Oeiras
European Forum on Nature Conservation and Pastoralism (ecopastoreio)

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