Igreja Tocoísta reúne líderes e fiéis para culto solene, empossamento episcopal e reflexão sobre o legado espiritual e a resistência ao colonialismo
Responsaveis da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo (Tocoístas) estão, desde ontem, 27.02. reunidos na cidade do Huambo.
Realizarão um culto marcado para o dia 1 de Março, em homenagem ao 108.º aniversário do profeta Simão Toco, fundador da confissão religiosa, assinalando a 24 deste mes, soube, o jornal de Angola.
Em conferência de imprensa realizada e m Luanda, o bispo da Igreja Tocoísta, D. Afonso Nunes, explicou que o encontro vai reflectir sobre a vida e a trajectória do ptofeta
do tocoísmo.
De acordo com o líder espiritual, que já se encontra desde ontem na cidade do Huambo, a igreja preparou uma série de actividades em que os fiéis e convidados vão falar sobre o contributo de Simão Toco na luta contra a opressão colonial.
As celebrações, segundo disse, são preenchidas com a realização de um seminario de refrescamento dirigido a pastores, feira de saude, distribuição de sopa a crianças em situação de vulnerabilidade e visitas a alguns hospitais.
O ponto mais alto da reunião religiosa, referiu, va ser o empossamento do bispo auxiliar Lucas Pedro nas vestes do novo representante da Igreja d o Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, previsto para o dia 1 , durante o culto de homenagem ao profeta Simão Toco.
Para os tocoístas, explicou, a tomada de posse de um bispo tem um grande significado, visto que o impacto e maior por ser um dos auxiliares directos do líder espiritual da igreja.
A sociedade, realçou, deve alegrar-se uma vez que antigamente não era lacil um negro reivindicar os direitos do povo como a liberdade, igualdade, salário justo e tudo
mais para que se pudesse viver com dignidade.
Dom Afonso Nunes pediu a colaboração e participação do Governo Provincial do Huambo nas festas do fundador do tocoismo, que ja movimenta fiéis de todo o país e alguns
provenientes do exterior para as comemorações.
O profeta Simão Gonçalves Toco (1918-1984) foi um importante líder religioso angolano, que fundou a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo (Tocoísmo) em 1949.
Profeta reconhecido pela teofania ( manifestação visível, tangível ou audível de Deus (ou de uma divindade) à humanidade), de 1935, foi perseguido pelo regime colonial português, exilado nos Açores por 11 anos, e é venerado pelos seus seguidores como uma figura espiritual chave na libertação africana.
Aspetos sobre Simão Toco:
- Nascimento e Missão: Nasceu a 24 de fevereiro de 1918 em Sadi Salomongo, Uíge. Recebeu a missão de fundar a sua própria igreja, com fundamentos baseados no Protestantismo e no Antigo Testamento, após uma experiência espiritual.
- Perseguição Colonial: Devido à expansão rápida da sua doutrina, que desafiava a autoridade colonial, foi exilado pela PIDE (polícia política portuguesa) para a Ilha de São Miguel, nos Açores, regressando a Luanda apenas em 31 de agosto de 1974.
- O Tocoísmo: A Igreja Tocoísta caracteriza-se pelo uso de roupas brancas, forte disciplina, oração e uma doutrina que enfatiza a revelação, a Bíblia e o Decálogo.
- Morte e Legado: Faleceu a 1 de janeiro de 1984. Apesar das perseguições e cisões após a sua morte, o Tocoísmo expandiu-se internacionalmente, com presença em vários países europeus.
- Reconhecimento: É um ícone religioso em Angola, com celebrações anuais da sua "teofania" (encontro com Deus) em Catembe, envolvendo milhares de fiéis.
Simão Toco é frequentemente lembrado pela sua resistência pacífica e pela sua mensagem de unidade e espiritualidade africana.
- Fundação e Repressão Inicial (1949): Após a "descida do Espírito Santo" em 1949 em Leopoldville (Congo Belga), Simão Toco começou a organizar o seu movimento. As autoridades coloniais portuguesas, receando o carácter subversivo da doutrina — que pregava a libertação dos africanos e a igualdade — consideraram-no uma ameaça.
- Expulsão do Congo e Deportação (1950-1962): Em 1949, foi expulso do Congo Belga pelas autoridades belgas em colaboração com os portugueses, sendo repatriado para Angola. A partir de 1950, foi deportado com a sua família para o sul de Angola, passando por várias localidades, como Ponta Albina, sendo vigiado permanentemente pela PIDE.
- A "Operação" de 1963: Entre 1963 e 1974, Simão Toco foi submetido a uma nova fase de exílio e restrição de movimentos, com a PIDE a tentar controlar a expansão do tocoísmo, que se mantinha ativo de forma secreta em várias regiões, especialmente Luanda e o Zaire.
- Vigilância da PIDE: Documentos da PIDE/DGS mostram que o movimento tocoísta era considerado uma forma de "nacionalismo religioso". A polícia política vigiava cultos e correspondência, prendendo e enviando para campos de trabalho os seus seguidores, temendo ligações entre o movimento tocoísta e as lutas de libertação, apesar de Toco se opor à resistência armada.
- Perseverança na Luta: Mesmo sob perseguição e detenção, Simão Toco continuou a liderar o seu movimento até à sua morte em 1984, sendo considerado um herói da resistência pelos tocoístas.
O tocoísmo foi, assim, uma das expressões religiosas mais reprimidas pelo colonialismo português, que viu no profetismo de Simão Toco uma força de contestação à autoridade colonial.