A onda positiva concentrou-se em mensagens que conectavam a homenagem à trajetória do presidente, com ênfase em origem popular, mobilidade social e simbolismos associados à democracia.
Entre os termos mais recorrentes no campo favorável aparecem "homenagem", "orgulho", "emocionante", "gigante", "líder" e "povo" — palavras que, segundo o monitoramento, sintetizam o tom predominante de exaltação.
Na verdade o Carnaval, além de festa, funcionou sempre como um arena de disputa simbólica e de memórias coletivas.
Do desfile enquanto parte do público reagiu com entusiasmo à escolha do enredo e à leitura histórica associada ao presidente, outra parte interpretou o movimento como provocação política e gatilho para confrontos já cristalizados no ambiente online.
As menções negativas concentraram-se em três eixos principais: questionamentos sobre uso político do Carnaval, algo bem tradicional desde Getulio Vargas críticas ao habitual gasto de dinheiro público e referências diretas à polarização.
Nesse grupo, dominaram os habituais "propaganda", "dinheiro público", "vergonha", "fora Lula" e "pão e circo".
Em redes de alto engajamento, mensagens curtas, indignadas e com gatilhos morais tendem a circular com rapidez, especialmente quando alimentadas por disputas prévias. Note-se que a combinação entre um evento cultural massivo e um personagem de alta centralidade digital amplia o alcance e acelera o atrito.
O espaço “informativo” ficou com menos margem para leituras intermedias ou contextualizações sem carga emocional.
O fundador da Ativaweb, Alek Maracajá, atribuiu esse padrão à consolidação de um ecossistema permanente de conflito no debate público brasileiro. Para ele, "A polarização no Brasil deixou de ser um estado momentâneo e se tornou um sistema vivo, alimentado continuamente por emoção, memória coletiva e algoritmos que recompensam o conflito".
A frase ajuda a explicar por que, mesmo quando a maior parte das menções é positiva, o volume negativo ainda se apresenta robusto e altamente visível.
Manifestações culturais de grande audiência passaram a operar também como “eventos de plataforma”.
Não é apenas o desfile em si que se torna assunto, mas o conjunto de reações que ele produz em tempo real, com disputa por narrativas, enquadramentos e moralidades.
A alta centralidade digital do presidente intensifica o fenômeno: qualquer menção relevante tende a se transformar em onda de engajamento cruzado, porque mobiliza apoios e rejeições com intensidade semelhante e por isso a neutralidade perde espaço e a conversa pública se organiza em blocos concorrentes, com vocabulários próprios e objetivos distintos — elogio, ataque, ironia, convocação.
Segundo Maracajá, "A polarização no Brasil deixou de ser um estado momentâneo e se tornou um sistema vivo, alimentado continuamente por emoção, memória coletiva e algoritmos que recompensam o conflito".
A repercussão de um desfile pode extrapolar o campo cultural e se converter em termômetro do próprio ambiente político, não necessariamente por intenção da escola, mas pelo modo como a disputa se comporta nas redes.
Os percentuais apontados pela Ativaweb — 56,2% positivos, 41,7% negativos e 2,1% neutros — desenham um retrato de alta temperatura social em torno do presidente e de qualquer representação pública ligada a ele.
A predominância positiva mostra capacidade de mobilização simbólica e de apoio, enquanto a massa crítica evidencia que a oposição digital mantém presença expressiva, com repertório consolidado e pronta resposta.
Enfim o Brasil entrou numa fase em que grandes eventos culturais viram, automaticamente, arenas de interpretação política e de choque identitário.
E, sse padrão não se limita a ciclos eleitorais: ele se mantém ativo porque se encaixa na lógica de engajamento que organiza as plataformas.