As relações entre os Estados Unidos e o Irão entraram numa nova fase de tensão após declarações que confirmam, sem rodeios, o uso deliberado da economia como instrumento de desestabilização política.
O secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, admitiu ter liderado uma estratégia destinada a criar escassez de dólares no Irão, com o objetivo de provocar inflação, colapso financeiro e contestação social.
Segundo informações divulgadas pela Press TV, Bessent reconheceu que a pressão económica teve efeitos diretos sobre o sistema bancário e sobre a moeda iraniana. “Criámos uma escassez de dólares — bancos colapsaram, a moeda entrou em colapso. A inflação explodiu e o povo foi para as ruas”, afirmou, descrevendo de forma crua uma política que, na prática, atinge diretamente o quotidiano da população civil.
Os efeitos dessa estratégia tornaram-se visíveis no final de dezembro de 2025, quando protestos eclodiram em várias cidades iranianas, impulsionados pela rápida desvalorização do rial e pelo aumento generalizado do custo de vida. O que começou como manifestações de carácter económico transformou-se, em alguns locais, em confrontos com as forças de segurança, com relatos de feridos e vítimas de ambos os lados. Os slogans entoados refletiam não apenas a insatisfação social, mas também um clima de forte desgaste psicológico numa sociedade sujeita a sanções prolongadas.
Apesar da gravidade dos acontecimentos, fontes locais indicam que a situação no Irão se encontra atualmente mais estável. Nas últimas semanas, a vida quotidiana manteve-se relativamente normal, com serviços a funcionar e a população a adaptar-se a um contexto económico adverso. Ainda assim, responsáveis iranianos sublinham que essa frágil normalização é constantemente dificultada por novas medidas externas, que combinam pressão económica com sinais de dissuasão militar.
Este episódio reacende um debate antigo, mas cada vez mais urgente, sobre o uso de sanções económicas como forma de guerra não declarada. Ao contrário de conflitos armados convencionais, este tipo de estratégia opera de forma silenciosa, prolongada e difusa, afetando sobretudo os cidadãos comuns. Como alertava o economista John Maynard Keynes, “não há meio mais subtil e mais seguro de derrubar as bases de uma sociedade do que corromper a sua moeda”. No caso iraniano, essa máxima parece estar a ser aplicada de forma literal.
Num mundo marcado por múltiplas crises — energéticas, financeiras e geopolíticas —, a admissão explícita de políticas destinadas a provocar sofrimento económico levanta questões sérias sobre o direito internacional, a ética das relações entre Estados e o verdadeiro custo humano das disputas de poder. Mais do que um episódio isolado, o que está em causa é a normalização da guerra económica como ferramenta legítima de política externa, com consequências profundas para a estabilidade global e para a confiança entre nações.