Num momento em que as tensões geopolíticas no Médio Oriente continuam a dominar o debate internacional, um vídeo animado produzido no Irão tornou-se um inesperado instrumento de propaganda digital.

A curta animação, realizada com figuras em estilo Lego, apresenta representações satíricas de Donald Trump e do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, acompanhados por uma figura demoníaca enquanto observam um álbum de recortes intitulado “Epstein File”.

O vídeo termina com uma mensagem que afirma ter sido produzido “em memória dos estudantes mortos no ataque, martirizados por terroristas sionistas e americanos”, procurando reforçar a narrativa política defendida por sectores do regime iraniano.

A produção é atribuída ao instituto estatal iraniano Revayat-e Fath, uma entidade associada à criação de conteúdos audiovisuais alinhados com a comunicação estratégica do Estado iraniano. O vídeo foi transmitido inicialmente na televisão nacional iraniana e posteriormente difundido nas redes sociais.

Propaganda digital num conflito cada vez mais mediático

A curta animação, com cerca de dois minutos e sem diálogos, parece ter sido concebida para ultrapassar barreiras linguísticas e alcançar uma audiência global. Desde a sua publicação, tem circulado amplamente em plataformas como Meta (proprietária do Facebook e Instagram) e X, acumulando milhares de interações.

Especialistas em comunicação política e segurança internacional sublinham que este tipo de conteúdos integra aquilo que muitos analistas designam como “guerra de informação”. Nessa lógica, imagens simbólicas, memes ou animações podem ser utilizados para reforçar narrativas ideológicas, mobilizar apoiantes e influenciar perceções públicas fora das fronteiras nacionais.

Segundo investigadores de comunicação estratégica, a escolha de um formato visual aparentemente infantil, como o estilo Lego, tem uma função deliberada: tornar a mensagem facilmente reconhecível, viralizável e emocionalmente impactante.

A batalha das narrativas

A circulação deste tipo de material ocorre num contexto de forte confrontação narrativa entre o Irão, os Estados Unidos e Israel. O regime iraniano tem investido cada vez mais em conteúdos audiovisuais destinados a audiências internacionais, procurando disputar a interpretação dos acontecimentos políticos e militares na região.

O líder supremo iraniano, Ali Khamenei, tem reiterado em vários discursos que o confronto contemporâneo não se limita ao plano militar, mas também ao campo mediático e cultural, onde diferentes atores procuram moldar a opinião pública global.

Para analistas de relações internacionais, episódios como este demonstram como as guerras modernas são travadas simultaneamente em múltiplos domínios: militar, diplomático, económico e informacional.

Como escreveu o filósofo francês Paul Virilio, estudioso da relação entre guerra e comunicação:
“Quem controla a imagem controla também uma parte decisiva da batalha.”

 

Fontes e referências