Nacional
29 Agosto 2018 23:15
Grandella -um Homem, uma Época!
Fez sexta-feira 30 anos que um incêndio de origem certamente criminosa por muita incúria que houve quase fez desaparecer o Chiado, em Lisboa a 25 de agosto de 1988.
Joffre Justino
Diretor / Jornalista
Fez sexta-feira 30 anos que um incêndio de origem certamente criminosa por muita incúria que houve quase fez desaparecer o Chiado, em Lisboa a 25 de agosto de 1988.
As chamas destruíram por completo os armazéns Grandella e Chiado, ambos sediados na baixa da cidade e o fogo que terá iniciado pelas 5 horas da manhã, destruiu 18 edifícios e uma área que equivale a quase oito estádios de futebol ( esta mania do futebol que até permite fazer dele um instrumento de medida)
Morreram neste incêndio um bombeiro e um morador de 70 anos que foram encontrados mortos, nos escombros e 50 pessoas ficaram feridas enquanto que cinco famílias ficaram desalojadas.
Terão sido as estruturas de madeira das paredes dos prédios pombalinos a grande dificuldade no combate e a rapidez violenta com que espalhou o incêndio a par de a Câmara Municipal de Lisboa ter colocado, vários canteiros de flores de betão pelas ruas dificultando a passagem dos veículos de socorro e ainda as bocas-de-incêndio que em geral não funcionavam que auxiliaram ao caos nesta zona de Lisboa.
Recordemos então, mais que os armazéns do Grandella, a personagem que o fez nascer Francisco de Almeida Grandella segundo um documento dos Professores de História que aqui, à partir dele trabalharemos.
Francisco de Almeida Grandella um Republicano iniciado na maçonaria no ano anterior, meses antes da revolução do 5 de Outubro de 1910 e filiado na Loja José Estêvão sob o nome de ""Pilatos"", fora eleito vereador da câmara municipal nas eleições de 1908, quando o Partido Republicano Português (PRP) arrebatou nove mil votos e nove vereadores numa vitória que deixou a monarquia politicamente impotente.
Grandella, um comerciante e industrial abastado, proprietário dos referidos armazéns Grandella foi incluido na lista de candidatos do PRP para granjear mais votos para o partido pois era sobejamente conhecido em Lisboa e fora dela, empregando centenas de funcionários nos Armazéns e outros tantos nas fábricas em São Domingos de Benfica; e com a fama de ser muito trabalhador e de ter subido a pulso.
Grandella granjeou fama política entretanto por ter defendido o como retirar os pobres das ruas da cidade como noticiou o jornal A Capital - Diário republicano da noite dizendo que ele propunha ajudar os mendigos recorrendo aos ""ricos"" e às ""heranças"".
Grandella defendeu a criação de um imposto aos indigentes e a publicação de um decreto que atribuísse ao Estado o direito de retirar a tutela dos filhos àqueles que se dedicassem como profissão à mendicidade.
Defendeu ainda um horror para os dias de hoje e mostrando como os tempos mudam positivamente mesmo se com avanços e recuos como as crianças serem deportadas para uma das colónias para trabalhar na lavoura e que os ""ricos"" e o dinheiro das ""heranças"", poderiam acudir aos verdadeiramente pobres, desconhecendo-se os critérios de distinção entre estes e os falsos pobres.
Defendeu também a constituição de uma espécie de milícias de vigilância, simpaticamente designadas de ""Os Amigos da Cidade"", cuja função era ""evitar vandalismos e outros atos menos corretos"" dos residentes, denunciar os ""desmazelos"" e ""zelar pelos estrangeiros"" e por mais de uma vez tentou convencer o executivo a atentar na limpeza das ruas por via de uma campanha publicitária nos jornais para que os habitantes não lançassem papéis e objetos vários para a via pública como pediu a colocação de ""três sacos de arame"", vulgo caixotes do lixo, na Avenida da Liberdade, ""a fim de não se encontrar enxovalhada aquela via pública"".
Na sua atividade empresarial foi Pioneiro na venda a retalho, deu proteção social aos seus trabalhadores e assistência médica aos seus empregados, construiu fábricas e um bairro operário para os trabalhadores, a rendas baixas, criou uma Caixa Previdente do Futuro em 1883, instituiu nas suas lojas um dia de descanso semanal, domingo e anualmente pagava uma semana de férias aos seus funcionários.
Apoiou financeiramente a construção de escolas, todas dotadas de símbolos maçónicos, com o frontão triangular sustentado em colunas e uma creche para os filhos dos operários.
Quinto filho de oito de Matilde Libânia e Francisco Maria Grandella, o único médico de Aveiras de Cima, Francisco nasceu a 23 de junho de 1853 e aos 11 anos estava a caminho de Lisboa, acompanhado por uma prima Miquelina que vivia na Calçada da Pampulha, para trabalhar como marçano numa loja na Rua dos Fanqueiros.
Sabia ler e escrever, completara a instrução primária, e ali ficou três anos. O trespasse da loja e a recusa do novo proprietário em promover o rapaz a caixeiro levaram o pai a mandá-lo regressar a casa e aí aprendeu francês e julgava estar definitivamente afastado da vida comercial, contou anos mais tarde num livrinho titulado O Assalto, editado pelos Armazéns Grandella para refutar publicamente as acusações feitas por três dos seus cinco filhos, que, em 1924, pediram em tribunal que o pai fosse considerado incapaz de gerir o seu património. O Assalto é também uma compilação de memórias que vão desde a descrição da construção do império Grandella até à paixoneta por uma galega que só tomava banho em bacias de prata.
Com a ajuda financeira de um amigo, comprou o trespasse de uma loja na Rua da Prata. Chamou o seu irmão Luís para trabalhar com ele, mandou imprimir cartões-de-visita com o nome Grandella & C.ª e deu o apelativo nome de Fazendas Baratas ao estabelecimento e lançou uma técnica revolucionária: a venda por correspondência. Enviou amostras de fazendas para a província e começaram a chover encomendas.
Nesta altura, Grandella era já o proprietário do Teatro Novo da Rua dos Condes (hoje Hard Rock Café), que mandara reconstruir. Tinha uma ""das mais elegantes e confortáveis"" salas de espetáculos da cidade, e para as salas subterrâneas do teatro mudou o Clube dos Makavenkos, um grupo de boémios, do qual Grandella fazia parte, que se apresentava como sociedade gastronómica que descreveu no livro Memórias e Receitas Culinárias dos Makavenkos, de 1919.
Mais tarde os filhos Matilde, Francisco Maria e Maria Justina acusaram-no de prodigalidade mas o tribunal, deu razão a Grandella, então com 71 anos e o filho Luís ficou responsável pelos Armazéns retirando-se o pai para o palácio da Foz do Arelho.
Em 1988 dá-se o drama que mata o Grandella morrendo com ele uma parte do passado Republicano lisboeta e espanta que a maioria dos Republicanos se tenham silenciado perante uma reconstrução que na realidade mata uma parcela da História de Lisboa a que fez o 5 de outubro a maçónica radical e carbonária.
Joffre Justino
Foto de destaque: hamadryades on Visual Hunt / CC BY-NC-S