Cabo Verde entrou formalmente num novo ciclo político com a tomada de posse do Governo liderado por Francisco Avelino Vieira de Carvalho, presidente do PAICV, partido vencedor das eleições legislativas de 17 de maio de 2026.

A cerimónia de posse, realizada a 19 de junho, marcou o regresso do Partido Africano da Independência de Cabo Verde ao poder, após dez anos de governação do MpD.

Mais do que uma simples alternância democrática, esta mudança política abre um tempo de expectativa. Francisco Carvalho chega ao Governo com maioria absoluta parlamentar, mas também com uma responsabilidade elevada: transformar o entusiasmo eleitoral em políticas públicas concretas, capazes de responder às dificuldades reais dos cabo-verdianos.

O novo primeiro-ministro assumiu a pasta das Finanças, sinalizando que pretende controlar diretamente o coração da governação económica. Num país marcado pela insularidade, pela pressão sobre os transportes, pelos desafios da habitação, da saúde, da educação, da água, da energia e da diáspora, esta opção pode ser lida como uma tentativa de recentrar a ação governativa na execução, na disciplina orçamental e na redistribuição social.

Francisco Carvalho prometeu trabalho, resultados e cumprimento da palavra dada. A expressão política desse compromisso terá agora de passar do discurso à realidade.

Um Governo com 18 titulares

O novo Executivo cabo-verdiano é composto por 15 ministros e três secretários de Estado.

A composição do Governo é a seguinte:

Francisco Avelino Vieira de Carvalho — Primeiro-Ministro e Ministro das Finanças.

Clóvis Isildo Silva — Ministro da Justiça, Presidência do Conselho de Ministros, Assuntos Parlamentares e Comunicação Social.

Carlos Sena Teixeira — Ministro da Administração Interna.

Manuel Augusto Lima Amante da Rosa — Ministro dos Negócios Estrangeiros, Comunidades e Defesa Nacional.

Carlos Alberto dos Santos Tavares — Ministro das Infraestruturas, Habitação e Ordenamento do Território.

João do Carmo Brito Soares — Ministro dos Transportes e Mar.

Adelsia de Jesus Mendes Almeida — Ministra da Família, Inclusão, Desenvolvimento Social e Trabalho.

António Manuel da Graça Baptista — Ministro da Economia, Comércio, Indústria e Transição Digital.

Lúcio Miranda Fernandes — Ministro da Saúde.

Arnaldo Jorge Mendes de Brito — Ministro da Educação, Formação Profissional, Ensino Superior, Ciência e Inovação.

Eveline Nair Monteiro Ramos — Ministra da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas.

António Augusto Sequeira Duarte — Ministro da Cultura, Indústrias Criativas, Juventude e Desporto.

José Casimiro Barbosa Gomes de Pina — Ministro da Reforma do Estado, Poder Local e Descentralização.

Carlos Alberto Ramos Varela — Ministro do Ambiente, Ação Climática e Energia.

José Carlos Moniz Varela — Ministro da Coordenação de Projetos Especiais e Acesso a Fundos.

Ao nível das secretarias de Estado, foram nomeados:

Maria José Pereira Lopes — Secretária de Estado das Finanças.

Artur Jorge da Conceição Tavares da Veiga — Secretário de Estado da Saúde.

José Manuel Gomes Pimenta Lima — Secretário de Estado do Turismo.

A esperança de um Cabo Verde mais moderno

A expectativa em torno deste Governo nasce de uma promessa central: construir um Cabo Verde mais moderno, mais inclusivo e mais justo.

Modernidade, neste contexto, não pode significar apenas digitalização ou crescimento económico. Terá de significar um Estado mais simples, mais próximo dos cidadãos, mais transparente, mais eficiente e menos burocrático. Um Estado capaz de servir quem vive nas ilhas, mas também quem pertence à nação cabo-verdiana espalhada pelo mundo.

Cabo Verde tem uma das maiores diásporas proporcionais do mundo. Essa realidade não é apenas um dado demográfico: é uma força cultural, económica e afetiva. Um Governo verdadeiramente moderno terá de olhar para a diáspora não como periferia, mas como extensão viva da nação. Cabo Verde é arquipélago e mundo ao mesmo tempo. É terra, mar, memória, partida e regresso.

Por isso, a nova agenda governativa terá de ser multicultural na visão, plural na escuta e estratégica na relação com os cabo-verdianos residentes no exterior.

Diversidade como identidade nacional

Cabo Verde nasceu do encontro. A sua identidade é feita de cruzamentos africanos, europeus, atlânticos, crioulos e diaspóricos. A diversidade não é uma moda política: é uma das matrizes profundas da cabo-verdianidade.

Esse património deve ser transformado em política pública.

Na cultura, significa valorizar a língua, a música, a literatura, a memória e as indústrias criativas. Na educação, significa formar jovens com consciência histórica, competências digitais e abertura ao mundo. Na economia, significa reconhecer que a criatividade cabo-verdiana pode ser marca global. Na diplomacia, significa posicionar Cabo Verde como ponte entre África, Europa, América e a lusofonia.

Um país pequeno em território pode ser grande em influência quando sabe usar a sua identidade como inteligência estratégica.

Um Governo mais social e humano

O novo Executivo assume funções num momento em que muitos cabo-verdianos esperam respostas mais fortes nas áreas sociais. A inclusão, a saúde, a habitação, o trabalho, as pensões, os transportes interilhas e a educação são dimensões decisivas para medir o sucesso deste ciclo.

A pasta da Família, Inclusão, Desenvolvimento Social e Trabalho, entregue a Adelsia Almeida, ganha particular relevância. A modernização de Cabo Verde só será verdadeira se tocar a vida concreta das pessoas: a mãe que precisa de apoio, o jovem que procura emprego, o idoso que vive com uma pensão reduzida, o estudante que quer continuar a estudar, o trabalhador que precisa de dignidade salarial, a família que não consegue suportar o custo da habitação.

A política só se torna esperança quando deixa de falar apenas de indicadores e começa a responder ao sofrimento silencioso das pessoas.

Transportes, mar e coesão territorial

Num país arquipelágico, os transportes não são apenas uma questão logística. São uma questão de justiça territorial.

A pasta dos Transportes e Mar, atribuída a João do Carmo Brito Soares, terá pela frente um dos maiores desafios estruturais do país: garantir ligações interilhas mais previsíveis, acessíveis e eficientes. Sem mobilidade interna, não há verdadeira unidade nacional. Sem transportes fiáveis, as ilhas ficam mais distantes, as oportunidades mais desiguais e a economia mais limitada.

O mar, por sua vez, deve ser visto não apenas como fronteira natural, mas como plataforma económica, cultural e geoestratégica. Cabo Verde pode afirmar-se no Atlântico através da economia azul, da logística marítima, da segurança, da investigação oceânica, das pescas sustentáveis e do turismo qualificado.

Educação, ciência e juventude

A nomeação de Arnaldo Brito para a Educação, Formação Profissional, Ensino Superior, Ciência e Inovação coloca uma das áreas mais decisivas no centro da expectativa nacional.

O futuro de Cabo Verde dependerá da qualidade da sua escola, da ligação entre formação e emprego, da capacidade de reter talento e da ambição de criar conhecimento. A juventude cabo-verdiana precisa de oportunidades reais, não apenas de discursos mobilizadores.

A gratuidade progressiva do ensino superior público, a valorização da formação profissional e a ligação entre ciência, inovação e desenvolvimento económico poderão ser marcas importantes deste novo ciclo, se forem acompanhadas por financiamento, rigor e execução.

Saúde e dignidade

A saúde será outro teste central ao novo Governo. Lúcio Miranda Fernandes assume uma pasta sensível, onde as promessas de universalidade e acesso gratuito terão de enfrentar limitações financeiras, desafios técnicos e desigualdades territoriais.

A saúde em Cabo Verde não pode ser apenas um serviço. Deve ser uma garantia de dignidade. Isso exige recursos humanos valorizados, melhores infraestruturas, sistemas digitais, prevenção, evacuações mais eficientes e uma visão integrada entre saúde pública, bem-estar, alimentação, ambiente e envelhecimento.

Um país humano mede-se também pela forma como cuida dos seus doentes, dos seus idosos, das suas crianças e dos seus cidadãos mais vulneráveis.

Ambiente, água e clima

Carlos Alberto Ramos Varela assume o Ambiente, Ação Climática e Energia num país especialmente exposto às alterações climáticas, à escassez de água, à pressão energética e à fragilidade dos ecossistemas insulares.

Cabo Verde precisa de uma política ambiental que seja simultaneamente ecológica, económica e social. A água, a energia, a agricultura, os resíduos, o ordenamento do território e a adaptação climática não podem ser tratados como áreas separadas. São partes do mesmo desafio de sobrevivência e desenvolvimento sustentável.

A modernidade cabo-verdiana terá de ser verde, ou não será verdadeiramente moderna.

A grande prova: cumprir

A maioria absoluta dá ao PAICV estabilidade parlamentar. Mas estabilidade não é sinónimo de sucesso. O verdadeiro teste será a capacidade de governar com humildade, transparência e sentido de Estado.

Francisco Carvalho herda um país democrático, respeitado internacionalmente e com forte capital simbólico. Mas herda também problemas persistentes: desigualdades sociais, dificuldades nos transportes, pressão sobre a juventude, dependência externa, vulnerabilidade climática e necessidade de maior eficiência do Estado.

O novo Governo terá de provar que a mudança prometida não é apenas alternância de rostos, mas alteração de método.

Cabo Verde precisa de uma governação que una competência técnica, sensibilidade social e visão estratégica. Precisa de modernidade sem perder humanidade. Precisa de diversidade sem fragmentação. Precisa de multiculturalismo sem desenraizamento. Precisa de desenvolvimento económico sem deixar ninguém para trás.

A tomada de posse de Francisco Carvalho não fecha uma etapa. Abre uma pergunta.

Será este o Governo capaz de transformar esperança em confiança?

A resposta começará a ser escrita nos próximos meses — não nos discursos, mas nos resultados.