Mais do que uma simples alternância democrática, esta mudança política abre um tempo de expectativa. Francisco Carvalho chega ao Governo com maioria absoluta parlamentar, mas também com uma responsabilidade elevada: transformar o entusiasmo eleitoral em políticas públicas concretas, capazes de responder às dificuldades reais dos cabo-verdianos.
O novo primeiro-ministro assumiu a pasta das Finanças, sinalizando que pretende controlar diretamente o coração da governação económica. Num país marcado pela insularidade, pela pressão sobre os transportes, pelos desafios da habitação, da saúde, da educação, da água, da energia e da diáspora, esta opção pode ser lida como uma tentativa de recentrar a ação governativa na execução, na disciplina orçamental e na redistribuição social.
Francisco Carvalho prometeu trabalho, resultados e cumprimento da palavra dada. A expressão política desse compromisso terá agora de passar do discurso à realidade.
O novo Executivo cabo-verdiano é composto por 15 ministros e três secretários de Estado.
A composição do Governo é a seguinte:
Francisco Avelino Vieira de Carvalho — Primeiro-Ministro e Ministro das Finanças.
Clóvis Isildo Silva — Ministro da Justiça, Presidência do Conselho de Ministros, Assuntos Parlamentares e Comunicação Social.
Carlos Sena Teixeira — Ministro da Administração Interna.
Manuel Augusto Lima Amante da Rosa — Ministro dos Negócios Estrangeiros, Comunidades e Defesa Nacional.
Carlos Alberto dos Santos Tavares — Ministro das Infraestruturas, Habitação e Ordenamento do Território.
João do Carmo Brito Soares — Ministro dos Transportes e Mar.
Adelsia de Jesus Mendes Almeida — Ministra da Família, Inclusão, Desenvolvimento Social e Trabalho.
António Manuel da Graça Baptista — Ministro da Economia, Comércio, Indústria e Transição Digital.
Lúcio Miranda Fernandes — Ministro da Saúde.
Arnaldo Jorge Mendes de Brito — Ministro da Educação, Formação Profissional, Ensino Superior, Ciência e Inovação.
Eveline Nair Monteiro Ramos — Ministra da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas.
António Augusto Sequeira Duarte — Ministro da Cultura, Indústrias Criativas, Juventude e Desporto.
José Casimiro Barbosa Gomes de Pina — Ministro da Reforma do Estado, Poder Local e Descentralização.
Carlos Alberto Ramos Varela — Ministro do Ambiente, Ação Climática e Energia.
José Carlos Moniz Varela — Ministro da Coordenação de Projetos Especiais e Acesso a Fundos.
Ao nível das secretarias de Estado, foram nomeados:
Maria José Pereira Lopes — Secretária de Estado das Finanças.
Artur Jorge da Conceição Tavares da Veiga — Secretário de Estado da Saúde.
José Manuel Gomes Pimenta Lima — Secretário de Estado do Turismo.
A expectativa em torno deste Governo nasce de uma promessa central: construir um Cabo Verde mais moderno, mais inclusivo e mais justo.
Modernidade, neste contexto, não pode significar apenas digitalização ou crescimento económico. Terá de significar um Estado mais simples, mais próximo dos cidadãos, mais transparente, mais eficiente e menos burocrático. Um Estado capaz de servir quem vive nas ilhas, mas também quem pertence à nação cabo-verdiana espalhada pelo mundo.
Cabo Verde tem uma das maiores diásporas proporcionais do mundo. Essa realidade não é apenas um dado demográfico: é uma força cultural, económica e afetiva. Um Governo verdadeiramente moderno terá de olhar para a diáspora não como periferia, mas como extensão viva da nação. Cabo Verde é arquipélago e mundo ao mesmo tempo. É terra, mar, memória, partida e regresso.
Por isso, a nova agenda governativa terá de ser multicultural na visão, plural na escuta e estratégica na relação com os cabo-verdianos residentes no exterior.
Cabo Verde nasceu do encontro. A sua identidade é feita de cruzamentos africanos, europeus, atlânticos, crioulos e diaspóricos. A diversidade não é uma moda política: é uma das matrizes profundas da cabo-verdianidade.
Esse património deve ser transformado em política pública.
Na cultura, significa valorizar a língua, a música, a literatura, a memória e as indústrias criativas. Na educação, significa formar jovens com consciência histórica, competências digitais e abertura ao mundo. Na economia, significa reconhecer que a criatividade cabo-verdiana pode ser marca global. Na diplomacia, significa posicionar Cabo Verde como ponte entre África, Europa, América e a lusofonia.
Um país pequeno em território pode ser grande em influência quando sabe usar a sua identidade como inteligência estratégica.
O novo Executivo assume funções num momento em que muitos cabo-verdianos esperam respostas mais fortes nas áreas sociais. A inclusão, a saúde, a habitação, o trabalho, as pensões, os transportes interilhas e a educação são dimensões decisivas para medir o sucesso deste ciclo.
A pasta da Família, Inclusão, Desenvolvimento Social e Trabalho, entregue a Adelsia Almeida, ganha particular relevância. A modernização de Cabo Verde só será verdadeira se tocar a vida concreta das pessoas: a mãe que precisa de apoio, o jovem que procura emprego, o idoso que vive com uma pensão reduzida, o estudante que quer continuar a estudar, o trabalhador que precisa de dignidade salarial, a família que não consegue suportar o custo da habitação.
A política só se torna esperança quando deixa de falar apenas de indicadores e começa a responder ao sofrimento silencioso das pessoas.
Num país arquipelágico, os transportes não são apenas uma questão logística. São uma questão de justiça territorial.
A pasta dos Transportes e Mar, atribuída a João do Carmo Brito Soares, terá pela frente um dos maiores desafios estruturais do país: garantir ligações interilhas mais previsíveis, acessíveis e eficientes. Sem mobilidade interna, não há verdadeira unidade nacional. Sem transportes fiáveis, as ilhas ficam mais distantes, as oportunidades mais desiguais e a economia mais limitada.
O mar, por sua vez, deve ser visto não apenas como fronteira natural, mas como plataforma económica, cultural e geoestratégica. Cabo Verde pode afirmar-se no Atlântico através da economia azul, da logística marítima, da segurança, da investigação oceânica, das pescas sustentáveis e do turismo qualificado.
A nomeação de Arnaldo Brito para a Educação, Formação Profissional, Ensino Superior, Ciência e Inovação coloca uma das áreas mais decisivas no centro da expectativa nacional.
O futuro de Cabo Verde dependerá da qualidade da sua escola, da ligação entre formação e emprego, da capacidade de reter talento e da ambição de criar conhecimento. A juventude cabo-verdiana precisa de oportunidades reais, não apenas de discursos mobilizadores.
A gratuidade progressiva do ensino superior público, a valorização da formação profissional e a ligação entre ciência, inovação e desenvolvimento económico poderão ser marcas importantes deste novo ciclo, se forem acompanhadas por financiamento, rigor e execução.
A saúde será outro teste central ao novo Governo. Lúcio Miranda Fernandes assume uma pasta sensível, onde as promessas de universalidade e acesso gratuito terão de enfrentar limitações financeiras, desafios técnicos e desigualdades territoriais.
A saúde em Cabo Verde não pode ser apenas um serviço. Deve ser uma garantia de dignidade. Isso exige recursos humanos valorizados, melhores infraestruturas, sistemas digitais, prevenção, evacuações mais eficientes e uma visão integrada entre saúde pública, bem-estar, alimentação, ambiente e envelhecimento.
Um país humano mede-se também pela forma como cuida dos seus doentes, dos seus idosos, das suas crianças e dos seus cidadãos mais vulneráveis.
Carlos Alberto Ramos Varela assume o Ambiente, Ação Climática e Energia num país especialmente exposto às alterações climáticas, à escassez de água, à pressão energética e à fragilidade dos ecossistemas insulares.
Cabo Verde precisa de uma política ambiental que seja simultaneamente ecológica, económica e social. A água, a energia, a agricultura, os resíduos, o ordenamento do território e a adaptação climática não podem ser tratados como áreas separadas. São partes do mesmo desafio de sobrevivência e desenvolvimento sustentável.
A modernidade cabo-verdiana terá de ser verde, ou não será verdadeiramente moderna.
A maioria absoluta dá ao PAICV estabilidade parlamentar. Mas estabilidade não é sinónimo de sucesso. O verdadeiro teste será a capacidade de governar com humildade, transparência e sentido de Estado.
Francisco Carvalho herda um país democrático, respeitado internacionalmente e com forte capital simbólico. Mas herda também problemas persistentes: desigualdades sociais, dificuldades nos transportes, pressão sobre a juventude, dependência externa, vulnerabilidade climática e necessidade de maior eficiência do Estado.
O novo Governo terá de provar que a mudança prometida não é apenas alternância de rostos, mas alteração de método.
Cabo Verde precisa de uma governação que una competência técnica, sensibilidade social e visão estratégica. Precisa de modernidade sem perder humanidade. Precisa de diversidade sem fragmentação. Precisa de multiculturalismo sem desenraizamento. Precisa de desenvolvimento económico sem deixar ninguém para trás.
A tomada de posse de Francisco Carvalho não fecha uma etapa. Abre uma pergunta.
Será este o Governo capaz de transformar esperança em confiança?
A resposta começará a ser escrita nos próximos meses — não nos discursos, mas nos resultados.