Cabo Verde prepara-se para viver um dos momentos políticos mais relevantes dos últimos anos com a tomada de posse de Francisco Carvalho como novo Primeiro-Ministro da República, marcada para o próximo dia 19 de junho, numa cerimónia oficial presidida pelo Presidente da República, José Maria Neves.

A investidura marca o início formal de um novo ciclo governativo liderado pelo PAICV (Partido Africano da Independência de Cabo Verde), após a vitória nas eleições legislativas de 17 de maio de 2026.

A posse acontece apenas um dia após a sessão constitutiva da XI Legislatura da Assembleia Nacional, agendada para 18 de junho, onde os 72 deputados eleitos assumirão funções e será eleito o novo presidente do Parlamento, encerrando formalmente o ciclo político do executivo liderado por Ulisses Correia e Silva.

Da Câmara da Praia ao Palácio do Governo

Sociólogo de formação, antigo presidente da Câmara Municipal da Praia e líder do PAICV desde 2025, Francisco Carvalho emerge como uma das figuras políticas mais influentes da nova geração cabo-verdiana. A sua ascensão política consolidou-se após a conquista da capital e o reforço do peso eleitoral do partido nas autárquicas, culminando numa vitória legislativa que devolve o PAICV ao poder central após anos na oposição.

Com uma maioria absoluta parlamentar — 37 deputados num parlamento de 72 lugares — o novo chefe do Governo assume funções com margem política confortável para implementar o seu programa, reduzindo a dependência de negociações parlamentares. O MpD, partido liderado até aqui por Ulisses Correia e Silva, passa agora à oposição, enquanto a UCID mantém uma representação residual de dois deputados.

O que promete o novo Governo?

Embora a composição final do executivo ainda não tenha sido oficialmente divulgada, Francisco Carvalho já adiantou que o novo Governo combinará experiência política com renovação geracional, apostando numa equipa escolhida pela competência técnica e capacidade de execução. O líder do PAICV afirmou igualmente que pretende governar para um “Cabo Verde para todos”, numa narrativa política centrada na inclusão social, combate às desigualdades e reforço das oportunidades económicas.

O novo Primeiro-Ministro eleito tem também defendido uma governação aberta à crítica da sociedade civil e uma transição institucional “de braços abertos”, sublinhando a necessidade de estabilidade democrática e diálogo nacional num contexto económico global desafiante.

Cooperação internacional no radar

Entre os primeiros sinais da futura governação está também a intenção de reforçar relações estratégicas internacionais, nomeadamente com parceiros históricos e económicos relevantes. Em declarações recentes, Francisco Carvalho destacou o interesse em aprofundar relações com Macau e China, numa perspetiva de cooperação económica, investimento e desenvolvimento.

Portugal já reagiu oficialmente à mudança política no arquipélago. O Primeiro-Ministro português, Luís Montenegro, felicitou Francisco Carvalho pela vitória eleitoral e reafirmou a disponibilidade de Portugal para aprofundar a cooperação bilateral entre os dois países, sobretudo nas áreas do crescimento económico, desenvolvimento e prosperidade comum.

Reservas da oposição e primeiros desafios

Apesar da legitimidade conferida pelas urnas, a indigitação de Francisco Carvalho não ficou isenta de críticas. A UCID manifestou reservas quanto à escolha do novo Primeiro-Ministro, levantando preocupações relacionadas com alegadas suspeitas ligadas ao período da sua liderança autárquica na Praia. Contudo, até ao momento, não existe qualquer acusação formal ou condenação judicial relacionada com o líder do PAICV.

Além do escrutínio político, Francisco Carvalho enfrentará desafios complexos desde o primeiro dia de governação: crescimento económico sustentável, emprego jovem, habitação, combate ao custo de vida, segurança alimentar, gestão da diáspora e reforço da capacidade produtiva do país — temas que marcaram fortemente o debate eleitoral.

Um novo capítulo para Cabo Verde

A tomada de posse de 19 de junho representa mais do que uma simples alternância governativa. Para muitos cabo-verdianos, simboliza a abertura de um novo capítulo político, num país frequentemente apontado como exemplo de estabilidade democrática em África.

A expectativa é elevada. O desafio será transformar a vitória eleitoral numa governação eficaz, capaz de responder às aspirações de um povo que votou pela mudança, mas que espera sobretudo resultados concretos.

Fontes:

Balai CV, Euronews, Expresso das Ilhas, Voz do Archipelago, Governo de Portugal, TDM Macau, Lusa.