A posse acontece apenas um dia após a sessão constitutiva da XI Legislatura da Assembleia Nacional, agendada para 18 de junho, onde os 72 deputados eleitos assumirão funções e será eleito o novo presidente do Parlamento, encerrando formalmente o ciclo político do executivo liderado por Ulisses Correia e Silva.
Sociólogo de formação, antigo presidente da Câmara Municipal da Praia e líder do PAICV desde 2025, Francisco Carvalho emerge como uma das figuras políticas mais influentes da nova geração cabo-verdiana. A sua ascensão política consolidou-se após a conquista da capital e o reforço do peso eleitoral do partido nas autárquicas, culminando numa vitória legislativa que devolve o PAICV ao poder central após anos na oposição.
Com uma maioria absoluta parlamentar — 37 deputados num parlamento de 72 lugares — o novo chefe do Governo assume funções com margem política confortável para implementar o seu programa, reduzindo a dependência de negociações parlamentares. O MpD, partido liderado até aqui por Ulisses Correia e Silva, passa agora à oposição, enquanto a UCID mantém uma representação residual de dois deputados.
Embora a composição final do executivo ainda não tenha sido oficialmente divulgada, Francisco Carvalho já adiantou que o novo Governo combinará experiência política com renovação geracional, apostando numa equipa escolhida pela competência técnica e capacidade de execução. O líder do PAICV afirmou igualmente que pretende governar para um “Cabo Verde para todos”, numa narrativa política centrada na inclusão social, combate às desigualdades e reforço das oportunidades económicas.
O novo Primeiro-Ministro eleito tem também defendido uma governação aberta à crítica da sociedade civil e uma transição institucional “de braços abertos”, sublinhando a necessidade de estabilidade democrática e diálogo nacional num contexto económico global desafiante.
Entre os primeiros sinais da futura governação está também a intenção de reforçar relações estratégicas internacionais, nomeadamente com parceiros históricos e económicos relevantes. Em declarações recentes, Francisco Carvalho destacou o interesse em aprofundar relações com Macau e China, numa perspetiva de cooperação económica, investimento e desenvolvimento.
Portugal já reagiu oficialmente à mudança política no arquipélago. O Primeiro-Ministro português, Luís Montenegro, felicitou Francisco Carvalho pela vitória eleitoral e reafirmou a disponibilidade de Portugal para aprofundar a cooperação bilateral entre os dois países, sobretudo nas áreas do crescimento económico, desenvolvimento e prosperidade comum.
Apesar da legitimidade conferida pelas urnas, a indigitação de Francisco Carvalho não ficou isenta de críticas. A UCID manifestou reservas quanto à escolha do novo Primeiro-Ministro, levantando preocupações relacionadas com alegadas suspeitas ligadas ao período da sua liderança autárquica na Praia. Contudo, até ao momento, não existe qualquer acusação formal ou condenação judicial relacionada com o líder do PAICV.
Além do escrutínio político, Francisco Carvalho enfrentará desafios complexos desde o primeiro dia de governação: crescimento económico sustentável, emprego jovem, habitação, combate ao custo de vida, segurança alimentar, gestão da diáspora e reforço da capacidade produtiva do país — temas que marcaram fortemente o debate eleitoral.
A tomada de posse de 19 de junho representa mais do que uma simples alternância governativa. Para muitos cabo-verdianos, simboliza a abertura de um novo capítulo político, num país frequentemente apontado como exemplo de estabilidade democrática em África.
A expectativa é elevada. O desafio será transformar a vitória eleitoral numa governação eficaz, capaz de responder às aspirações de um povo que votou pela mudança, mas que espera sobretudo resultados concretos.
Balai CV, Euronews, Expresso das Ilhas, Voz do Archipelago, Governo de Portugal, TDM Macau, Lusa.