Eu, sendo judeu, repudio esta guerra e, sobretudo, a forma como ela está a ser conduzida.

“A Human Rights Watch acusou Israel, na segunda-feira, 9 de março, de utilizar fósforo branco de forma ‘ilegal’ sobre zonas residenciais de uma cidade no sul do Líbano na semana passada.” (Le Monde)

A guerra, as prisões, a repressão e o sofrimento humano sempre me horrorizam. Como acontece com a maioria dos judeus que conhecem a história do seu próprio povo, sei demasiado bem o que significam a perseguição, o medo e a violência. Talvez por isso mesmo, cada nova escalada de destruição me recorde que nenhuma causa pode justificar a perda da nossa humanidade.

Lembro os romances sobre a II Guerra Mundial e o que foi vivido pela comunidade judaica na Europa e no resto do mundo. Esses anos arrepiam-me: foram tempos em que uma parte da Humanidade detestou tanto outra que a chacinou ou permitiu que a chacinassem.

Educado num ambiente católico, mas com um pai judeu liberal e republicano, aprendi a desprezar o nazi-fascismo e, por extensão, também o leninismo estalinista, ainda que por essa corrente tenha passado entre 1972 e 1975.

A minha distanciação a certas visões do mundo associadas ao judaísmo político não nasceu de uma crítica religiosa ao judaísmo. Nasceu da rejeição do expansionismo visível nas várias guerras locais entre judeus e árabes desde 29 de novembro de 1947, quando a ONU decidiu criar um Estado judaico e um Estado árabe na Palestina — solução que continua a ser, ainda hoje, a única aceitável para uma paz baseada no diálogo.

Hoje, entretanto, somos informados pela organização norte-americana Human Rights Watch de que as forças armadas israelitas terão disparado munições com fósforo branco sobre habitações, pelo menos em Yohmor, no sul do Líbano.

O fósforo branco é usado regularmente na fabricação de fogos de artifício e de bombas de fumo para camuflar movimentos de tropas em operações militares.

A sua utilização como arma química é proibida pelas Convenções de Genebra e pela Convenção sobre Armas Químicas, que reafirma os termos do Protocolo de Genebra de 1925, proibindo o uso de armas químicas e biológicas.

Bombas, munições de artilharia e morteiros que contêm fósforo explodem em flocos inflamáveis após o impacto. São artefactos incendiários que provocam queimaduras terríveis, podendo mesmo ser letais. No jargão militar, o fósforo branco é referido como WP (White Phosphorus) ou “Willy Pete”, expressão que data da Primeira Guerra Mundial e que ainda era comum, pelo menos até ao período da Guerra do Vietname.

É legal o uso de fósforo branco como componente de foguetes de iluminação e bombas de fumo, e a Convenção sobre Armas Químicas não o inclui na lista de armas químicas.

A Human Rights Watch afirma ter verificado evidências de que as forças israelitas dispararam projéteis de artilharia com fósforo branco sobre a cidade de Yohmor, no sul do Líbano, em 3 de março de 2026, levantando preocupações sobre possíveis violações do direito internacional humanitário.

Segundo a organização, imagens e vídeos publicados online mostram pelo menos dois projéteis de artilharia dispersando fósforo branco no ar sobre um bairro residencial. O padrão da explosão visível corresponde às formações de fumo características produzidas por projéteis de artilharia da série M825 de 155 milímetros.

A Reuters não conseguiu verificar de forma independente as conclusões da organização.

O exército israelita declarou à Reuters que desconhece e não pode confirmar o uso de projéteis contendo fósforo branco no Líbano. Acrescentou que não analisou os mesmos vídeos citados pela HRW e que, por isso, não poderia comentar as alegações. As autoridades libanesas também não se pronunciaram.

Num comunicado divulgado no início de 3 de março, o exército israelita ordenou a evacuação dos moradores de Yohmor e de cerca de 50 vilas e cidades próximas.

Recorde-se que, em julho de 2024, o Conselho Nacional Libanês para Pesquisa Científica afirmou que ocorreram 175 ataques israelitas no sul do Líbano com fósforo branco desde outubro de 2023, muitos dos quais provocaram incêndios que afetaram mais de 600 hectares de terras agrícolas.

A HRW analisou oito imagens e confirmou a localização de incêndios em Yohmor. Fotografias adicionais, partilhadas por uma unidade local de defesa civil, mostram bombeiros a combater chamas em telhados e no interior de um veículo, com fumo a sair de edifícios próximos.

Os investigadores consideram que os incêndios foram provavelmente causados por fragmentos de fósforo branco em combustão que se dispersaram após a explosão dos projéteis.

O fósforo branco inflama-se em contacto com o oxigénio e queima intensamente, incendiando edifícios, plantações e outras estruturas.

Embora possa ser utilizado para criar cortinas de fumo, marcar alvos ou iluminar campos de batalha, o seu uso sobre áreas povoadas é amplamente criticado, pois pode espalhar material em chamas por grandes áreas.

A Human Rights Watch argumenta que o uso dessas munições em zonas residenciais é indiscriminado e não cumpre a obrigação, prevista no direito internacional, de minimizar danos à população civil.

A organização alerta que o fósforo branco pode causar queimaduras extremamente graves e ferimentos com risco de vida, deixando frequentemente sequelas permanentes.

Na manhã do dia do suposto ataque, um porta-voz do exército israelita, em árabe, emitiu instruções de evacuação para Yohmor e para cerca de 50 comunidades vizinhas, aconselhando os moradores a afastarem-se pelo menos um quilómetro das suas aldeias. O aviso foi emitido às 5h27 e repetido por volta do meio-dia.

A HRW afirmou não poder confirmar se havia civis na área afetada no momento do ataque nem se alguém ficou ferido pelo fósforo branco.

A organização recorda ainda que já havia documentado o uso dessa substância pelas forças armadas israelitas em áreas da fronteira sul do Líbano entre outubro de 2023 e maio de 2024, incidentes que aumentaram os riscos para os civis e contribuíram para deslocamentos de população.

Os confrontos entre Israel e o grupo armado libanês Hezbollah voltaram a intensificar-se em 2 de março de 2026.

A 6 de março, o Ministério da Saúde do Líbano relatou pelo menos 217 mortes em consequência da retomada das hostilidades, com centenas de milhares de pessoas forçadas a abandonar as suas casas. Uma atualização posterior indicou que o número total de mortos tinha subido para 394 em 8 de março.

Israel também emitiu ordens de evacuação para toda a região ao sul do rio Litani e para os subúrbios do sul de Beirute, áreas densamente povoadas.

A Human Rights Watch alertou que o amplo alcance dessas ordens pode configurar deslocamento forçado ilegal se não forem estritamente necessárias para proteger civis.

O direito internacional não proíbe o fósforo branco de forma absoluta, mas impõe restrições ao seu uso. Um protocolo da Convenção sobre Certas Armas Convencionais regulamenta as armas incendiárias, embora críticos afirmem que o tratado apresenta lacunas ao excluir algumas munições multiuso.

A Human Rights Watch pediu a Israel que cesse o lançamento de projéteis de fósforo branco com detonação aérea sobre áreas povoadas e instou países que fornecem armas a Israel, como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, a reconsiderarem a assistência militar caso essas práticas continuem.

A organização também incentivou as autoridades libanesas a investigarem as alegadas violações e sugeriu que o Líbano considere aderir ao Tribunal Penal Internacional para permitir uma responsabilização jurídica mais ampla.

Segundo a HRW, existem munições alternativas capazes de produzir fumo e efeitos semelhantes no campo de batalha sem espalhar material incendiário sobre áreas civis.