Durante séculos, o nome de Luís de Camões esteve quase exclusivamente associado à epopeia de Os Lusíadas.

No entanto, antes de se afirmar como o grande poeta da nação, Camões poderá ter sido, na juventude, também dramaturgo. É nesse território menos explorado da sua obra que nasce Filodemo, uma comédia pastoril que regressa agora aos palcos portugueses numa encenação de Pedro Penim.

Produzida no âmbito das comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões, a peça encontra-se em cena na Sala Estúdio Valentim de Barros, no Teatro Nacional D. Maria II, até 18 de abril.

Entre ninfas, pastores e amores ingénuos

Filodemo desenrola-se num mundo rural imaginado, habitado por ninfas e pastores que vivem paixões marcadas por equívocos, revelações e jogos amorosos. À primeira vista, trata-se de um retrato distante, quase anacrónico, das convenções afetivas de outro tempo. Contudo, é precisamente nessa distância que se abre um espaço fértil para a invenção contemporânea.

O próprio título carrega um duplo significado. “Filodemo” deriva do grego philos (amigo) e demos (povo), podendo significar “amigo do povo” ou “aquele que ama o povo”. É também o nome da comédia de moralidade escrita por Camões, centrada nos amores de um criado. A ambiguidade semântica revela desde logo uma dimensão política subtil: amar o povo, servir o povo, representar o povo.

Teatro como disputa simbólica

Para Pedro Penim, diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, revisitar Filodemo não é um exercício arqueológico, mas um ato crítico. A proposta parte de uma “dissonância temporal”: olhar de novo para o que nos é estranho para compreender o que em nós permanece igual.

Num tempo em que determinados discursos procuram cristalizar o passado e transformá-lo em instrumento de exclusão, o diálogo com os clássicos torna-se um gesto de resistência. Reencenar Camões é afirmar que o teatro continua a ser um lugar de disputa simbólica, de reapropriação e de liberdade.

Entre a poesia e o jogo cénico, a encenação confronta a inocência do texto com as urgências do presente, estabelecendo um diálogo entre o passado que nos funda e o presente que o reinscreve.

Elenco e equipa artística

A produção conta com interpretação de Ana Coimbra, Ana Tang, Bernardo de Lacerda, Guilherme Arabolaza, João Grosso, José Neves, June João, Mariana Magalhães, Stela e Vítor Silva Costa.

Os figurinos são assinados por Aldina Jesus; o desenho de luz por Daniel Varela; o desenho de som por Margarida Pinto; a sonoplastia por João Neves e Rui Dâmaso; e o vídeo por André Dinis Carrilho. A assistência de encenação está a cargo de Joana Brito Silva.

Datas e itinerância

Após a temporada em Lisboa, a peça segue em itinerância:

  • 24 de abril – Auditório Municipal Beatriz Costa, Mafra

  • 15 de maio – Fábrica Ideias, Gafanha da Nazaré (Festival 23 Milhas)

  • 5 de junho – Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery

Na estreia, assinalada no Dia Mundial do Teatro, e nos dois dias seguintes, a entrada foi livre, mediante lotação. Estão ainda previstas sessões com conversa com os artistas e apresentação com interpretação em Língua Gestual Portuguesa.

Mais do que celebrar o génio literário de Camões, esta nova leitura de Filodemo recorda que os clássicos não são monumentos estáticos. São territórios vivos. E o palco continua a ser o lugar onde o passado se questiona, se confronta e se transforma.