Produzida no âmbito das comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões, a peça encontra-se em cena na Sala Estúdio Valentim de Barros, no Teatro Nacional D. Maria II, até 18 de abril.
Filodemo desenrola-se num mundo rural imaginado, habitado por ninfas e pastores que vivem paixões marcadas por equívocos, revelações e jogos amorosos. À primeira vista, trata-se de um retrato distante, quase anacrónico, das convenções afetivas de outro tempo. Contudo, é precisamente nessa distância que se abre um espaço fértil para a invenção contemporânea.
O próprio título carrega um duplo significado. “Filodemo” deriva do grego philos (amigo) e demos (povo), podendo significar “amigo do povo” ou “aquele que ama o povo”. É também o nome da comédia de moralidade escrita por Camões, centrada nos amores de um criado. A ambiguidade semântica revela desde logo uma dimensão política subtil: amar o povo, servir o povo, representar o povo.
Para Pedro Penim, diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, revisitar Filodemo não é um exercício arqueológico, mas um ato crítico. A proposta parte de uma “dissonância temporal”: olhar de novo para o que nos é estranho para compreender o que em nós permanece igual.
Num tempo em que determinados discursos procuram cristalizar o passado e transformá-lo em instrumento de exclusão, o diálogo com os clássicos torna-se um gesto de resistência. Reencenar Camões é afirmar que o teatro continua a ser um lugar de disputa simbólica, de reapropriação e de liberdade.
Entre a poesia e o jogo cénico, a encenação confronta a inocência do texto com as urgências do presente, estabelecendo um diálogo entre o passado que nos funda e o presente que o reinscreve.
A produção conta com interpretação de Ana Coimbra, Ana Tang, Bernardo de Lacerda, Guilherme Arabolaza, João Grosso, José Neves, June João, Mariana Magalhães, Stela e Vítor Silva Costa.
Os figurinos são assinados por Aldina Jesus; o desenho de luz por Daniel Varela; o desenho de som por Margarida Pinto; a sonoplastia por João Neves e Rui Dâmaso; e o vídeo por André Dinis Carrilho. A assistência de encenação está a cargo de Joana Brito Silva.
Após a temporada em Lisboa, a peça segue em itinerância:
24 de abril – Auditório Municipal Beatriz Costa, Mafra
15 de maio – Fábrica Ideias, Gafanha da Nazaré (Festival 23 Milhas)
5 de junho – Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery
Na estreia, assinalada no Dia Mundial do Teatro, e nos dois dias seguintes, a entrada foi livre, mediante lotação. Estão ainda previstas sessões com conversa com os artistas e apresentação com interpretação em Língua Gestual Portuguesa.
Mais do que celebrar o génio literário de Camões, esta nova leitura de Filodemo recorda que os clássicos não são monumentos estáticos. São territórios vivos. E o palco continua a ser o lugar onde o passado se questiona, se confronta e se transforma.