Suas telas partem da observação da rotina diária, mas não buscam uma representação objetiva. Em vez disso, propõem uma leitura subjetiva e poética da paisagem. O artista investiga questões inerentes ao meio, ao pictórico. A sobreposição de camadas, o equilíbrio cromático e a materialidade são trabalhados com uma espontaneidade aparente que, na verdade, se apoia em construções elaboradas com rigor e lirismo.
Nessa síntese entre prática expositiva e investigação formal, Fernando consolida sua relevância na pintura contemporânea luso-brasileira, capturando na gravidade da pintura aquilo que parece escapar ao real.
O título da mostra remete ao fenômeno astrofísico que define o limiar de um buraco negro. Para o artista, serve como metáfora dos elementos invisíveis da prática artística. Suas “paisagens fragmentadas” buscam desfamiliarizar o mundo comum, aproximando-se do conceito de “ostranenie” (estranhamento) do crítico russo Viktor Shklovsky, que preconiza tensionar o familiar, convidando o espectador a conquistar novas perspectivas a partir da subversão de contextos habituais, a “ver com novos olhos”.
Ainda segundo Tosti, os elementos quotidianos observados pelo artista e transfigurados em suas pinturas “habitam agora uma zona liminar onde referências colapsam e o tempo em si é alterado. Da mesma forma que o tempo se prolonga no horizonte de eventos, estas obras parecem convidar a uma observação mais lenta e a um envolvimento sustentado com o mistério”.
Serviço:
Fernando Mello Brum – “Horizonte de Eventos”
Texto crítico: Mattia Tosti
Galeria 3+1 Arte Contemporânea
Largo Hintze Ribeiro 2 E-F, 1250-122, Lisboa
www.3m1arte.com
23 de janeiro a 14 de março de 2026