Perceber como o artista soma sua prática diária de ateliê com a formação acadêmica nos oferece uma chave para a leitura de sua obra, que conjuga observação do quotidiano com uma reflexão meticulosa sobre os meios da pintura.

Segundo Mattia Tosti no texto crítico para a mostra, “a prática de Mello Brum demora-se em fenómenos marginais e quase insignificantes: o bolor que se espalha por uma superfície, a textura da parede, combinações subtis de cores, a geografia perfeita dos ramos secos. Estes detalhes aparentemente insignificantes que permanecem no limite do radar das pessoas frequentemente ocupam um espaço central no trabalho do artista”.

 

Suas telas partem da observação da rotina diária, mas não buscam uma representação objetiva. Em vez disso, propõem uma leitura subjetiva e poética da paisagem. O artista investiga questões inerentes ao meio, ao pictórico. A sobreposição de camadas, o equilíbrio cromático e a materialidade são trabalhados com uma espontaneidade aparente que, na verdade, se apoia em construções elaboradas com rigor e lirismo.

 

Nessa síntese entre prática expositiva e investigação formal, Fernando consolida sua relevância na pintura contemporânea luso-brasileira, capturando na gravidade da pintura aquilo que parece escapar ao real.

 

O título da mostra remete ao fenômeno astrofísico que define o limiar de um buraco negro. Para o artista, serve como metáfora dos elementos invisíveis da prática artística. Suas “paisagens fragmentadas” buscam desfamiliarizar o mundo comum, aproximando-se do conceito de “ostranenie” (estranhamento) do crítico russo Viktor Shklovsky, que preconiza tensionar o familiar, convidando o espectador a conquistar novas perspectivas a partir da subversão de contextos habituais, a “ver com novos olhos”.

 

Ainda segundo Tosti, os elementos quotidianos observados pelo artista e transfigurados em suas pinturas “habitam agora uma zona liminar onde referências colapsam e o tempo em si é alterado. Da mesma forma que o tempo se prolonga no horizonte de eventos, estas obras parecem convidar a uma observação mais lenta e a um envolvimento sustentado com o mistério”.

 

    

 

 

Serviço:

Fernando Mello Brum – “Horizonte de Eventos”

Texto crítico: Mattia Tosti

Galeria 3+1 Arte Contemporânea

Largo Hintze Ribeiro 2 E-F, 1250-122, Lisboa

www.3m1arte.com

23 de janeiro a 14 de março de 2026