O jovem Miguel Salazar, tradutor de profissão filho de Maria Helena Costa, um dia depois de, na sexta-feira, 20 de março, PSD, Chega e CDS terem aprovado na generalidade três projetos de lei na Assembleia da República (AR) que revertem a lei da autodeterminação da identidade e expressão de género e, assim, os atuais direitos das pessoas trans e intersexo, fez uma corajosa declaração nas suas redes sociais, a relatar como foi expulso de casa e foi alvo de maus-tratos, tendo como apoio amigos transexuais como alias ja tinha feito anteriormente.
Para Migurl Salazar este retrocesso na lei pode levar a que as pessoas trans não encontrem saídas e acabem até por cometer atos contra a sua própria vida.
"Não se brinca com a vida das pessoas trans. Cada vida trans que vier a ser perdida no decorrer desta legislação medieval será sangue derramado nas mesmas mãos que me deram estalos por me recusar a dizer que 'o normal é um homem f#&*# com uma mulher'", notou, referindo-se à mãe, Maria Helena Costa, autora de vários livros sobre ideologia de género, que, em 2021, já tinha acusado, numa entrevista dada ao site SetentaeQuatro, de o ter pressionado, em conjunto com o pai e um pastor evangélico, a fazer 'terapia' por ser homossexual.
Na publicação partilhada há dois dias na sua página de Facebook e de Instagram, Miguel Salazar acusou agora a mãe de ter "diabolizado" a sua existência, descrevendo-a como uma "fascista lunática".
"A minha vida, hoje, seria mais miserável e pobre se estas pessoas trans não tivessem aparecido. Aprendi com elas diferentes experiências sobre como é ser trans, ouvi a dor delas, mas vi também a força de vontade de se manterem vivas num mundo tantas vezes tão resistente à sua existência. Aquilo a que assistímos na quinta e na sexta-feira partiu-me o coração de uma forma que já não o sentia há algum tempo. Não me chocou o resultado de uma regressão de quase duas décadas em matéria de direitos humanos porque conheço bem a direita e os fascistas que se sentam no nosso Parlamento, mas a dor é diferente quando vêm atrás da nossa gente", partilhou, acrescentando que os "trans não são doentes mentais".
"Têm tanta certeza de quem são como eu tenho a certeza de quem sou, sabem o seu nome como eu sei o meu, amam como eu amo, sofrem como eu sofro, choram como eu choro, riem-se como eu me rio, enfurecem-se como eu me enfureço, e da mesma forma que eu soube quando é que me estavam a pisar, a invisibilizar-me e a tentar "curar-me", também as minhas amigas e os meus amigos trans, de carne e osso, sabem quando a sua existência é posta em debate e quando este debate as reduz a uma 'ideologia' e as empurra para relatórios médicos que se tornam a condição primordial para a sua identidade ser reconhecida pelo Estado, na escola, no trabalho, na rua, nos seus documentos", escreveu,
"Por mais que tenha vindo a ignorar a existência de quem me deu à luz - Maria Helena Costa -, percebo que o ódio que a consome não parou no momento em que me libertei de toda a violência desta fascista lunática que vive cada dia para nos atormentar, desde que descobriu que sou gay. Enquanto fui prisioneiro dos seus delírios, dos seus insultos, dos seus estalos e puxões de cabelo, das gritarias das milhentas discussões até às tantas da noite, das suas ameaças de que me bateria, me expulsaria de casa, me proibiria de me relacionar com pessoas LGBTI+ e me cortaria a internet se eu abusasse na defesa da minha dignidade, da sua menorização e diabolização da minha existência, soube que não iria parar em mim", atirou.
DMiguel Salazar, afirmou que as agressões aumentaram quando tinha 16 anos.
"Até lá, ignorava os meus pedidos para me fazer companhia, bem como os avisos de amigos e amigas próximas da família que a avisavam de que estava a negligenciar a atenção que devia dar-me por ficar dias inteiros seguidos a escrever e a publicar livros sobre o porquê de todas as religiões, menos a dela, estarem erradas. Ela achava que eu não tinha idade para me assumir como gay", disse, especificando que, no entanto, já tinha idade para "a APAV confirmar ao treinador que sofria de violência doméstica" e para lhe "pré-diagnosticarem, no Centro Gis, com ansiedade e depressão resultantes do ambiente a que a ideóloga do Chega e deputada à Assembleia Municipal da Póvoa de Varzim" o submeteu.
"Os seus livros homofóbicos e transfóbicos sem qualquer respaldo científico estão à venda em praticamente qualquer livraria, as suas palestras espalhadas por toda a internet, tem palco no Observador para nos desumanizar em cada artigo que escreve, não esconde a sua paixão e a sua relação próxima com Rita Matias - a sua miniatura -, é elogiada por André Ventura em Congressos, tem um dos seus livros prefaciado por Paulo Otero, uma indicação do Chega para o Tribunal Constitucional (que comparou o casamento entre pessoas do mesmo sexo a relações sexuais entre humanos e animais) e, nos dois dias em que se debateu a vida de pessoas trans, ali estava a Maria Helena", escreveu, lembrando que esta estava, na passada semana, "sentada nas galerias da Assembleia da República, sedenta por ver materializada a sua luta pela opressão de quem nunca lhe fez mal, para fazer às pessoas LGBTI+ deste país", enquanto "a deputada
"Esta é o exemplo de boa mãe para a deputada do Chega. A inspiração para escreverem projetos de lei para acabarem com as nossas vidas, com a nossa saúde mental, com a nossa segurança, com a nossa liberdade (digo nossa, não porque seja trans, mas porque o bode expiatório será, um dia, toda a comunidade LGBTI+. Em breve, se bem prestaram atenção ao discurso de encerramento da Rita Matias, irão atrás da criminalização das terapias de conversão, às quais fui submetido)", atirou Miguel Salazar, revelando que, "para a Rita Matias, a Maria Helena Costa é uma boa mãe, mesmo ela tendo conseguido a proeza de me fazer sentir vontade de tirar a minha própria vida, só e apenas porque gosto de rapazes".
"Uma boa mãe que, quando eu tinha 16 anos, me disse que eu tinha uma doença mortal, que ia acabar na prostituição, que estava possuído por demónios, que ia arder no inferno, entre outras barbaridades pelas quais nunca me pediu desculpa. Mas mais importante para ela do que defender-me e proteger-me, era garantir que não arderá no inferno depois de morrer por aceitar que tem um filho gay", garantiu.
Miguel Salazar afiançou ainda que os pais o utilizaram ainda como "terapeuta de casal falhado" e que têm um casamento de fachada.
"Quando eu andava na primária, foi traída pelo meu pai - candidato pelo Chega, nas últimas eleições autárquicas, na lista pela Estela -, que escondia o adultério dizendo que ia para o monte orar a Deus, à noite. Lembro-me perfeitamente de ter cerca de seis anos e de o ver a preparar-se para ir dormir na sala, já depois de tudo ter sido descoberto, e de lhe ter ido perguntar se ele ainda amava a minha mãe, a pedido dela. A resposta foi que não, só se fossem amigos, mas isso ela não queria", descreveu.
Em suma, concretizou Miguel Salazar, "não tinha idade para saber que gostava de rapazes, mas tinha idade para ser terapeuta de um casal falhado".
"Hoje, fingem-se felizes, depois de terem deitado para baixo do tapete uma traição que deitou a autoestima dela ao chão e afetou o meu desempenho escolar, e de terem transformado a minha homossexualidade na maior monstruosidade que alguma vez pisou aquela casa", assegurou.