O agravamento do conflito entre Israel e o Hezbollah no sul do Líbano provocou uma nova vaga de deslocações massivas de civis, reacendendo o alerta de organizações internacionais sobre a possibilidade de violações graves do direito internacional humanitário.

Segundo dados divulgados por organizações humanitárias e pelas autoridades libanesas, mais de 300 mil pessoas foram deslocadas em todo o país em menos de 100 horas, após uma série de ordens de evacuação emitidas pelas forças armadas israelitas para várias regiões do sul e leste do Líbano, incluindo zonas densamente povoadas nos subúrbios de Beirute.

A Amnistia Internacional denunciou que as ordens de evacuação abrangem mais de uma centena de cidades e aldeias, provocando pânico generalizado entre a população e criando o risco de uma nova catástrofe humanitária num país já fragilizado por múltiplas crises económicas, políticas e sociais.

Kristine Beckerle, diretora regional adjunta da Amnistia Internacional para o Médio Oriente e Norte de África, afirmou que “os civis no Líbano estão, mais uma vez, a ser obrigados a fugir em massa por um exército que repetidamente demonstrou a sua disposição de infligir danos significativos à população civil através de ataques ilegais em rondas anteriores de combates”.

De acordo com a responsável, os avisos emitidos pelas forças armadas israelitas são excessivamente amplos, não oferecendo informações concretas sobre onde e quando poderão ocorrer ataques, o que dificulta decisões informadas por parte da população civil.

“Muitos civis, incluindo idosos, crianças e pessoas com deficiência, não podem fugir ou podem não ter nenhum local seguro para onde ir”, sublinhou Beckerle.

Estradas congestionadas e fuga em massa

As ordens de evacuação levaram a movimentos massivos de fuga, com milhares de famílias a abandonar as suas casas em poucas horas. Testemunhos relatam estradas congestionadas durante longos períodos, com pessoas a fugir em veículos ou mesmo a pé, transportando apenas os bens essenciais.

Segundo o Centro de Operações de Emergência de Saúde Pública do Ministério da Saúde do Líbano, desde a escalada do conflito, a 2 de março, foram registadas 217 mortes e 798 feridos. Mais de 110 mil deslocados encontram-se atualmente alojados em abrigos coletivos.

A Amnistia Internacional alerta ainda que emitir ordens de evacuação não exime qualquer exército das suas responsabilidades legais. O direito internacional humanitário obriga todas as partes em conflito a proteger civis e a tomar precauções para minimizar danos.

“Emitir ordens de evacuação em massa não concede ao exército israelita o direito de tratar estas áreas como zonas de fogo aberto”, afirmou Beckerle, acrescentando que ataques aéreos foram realizados em várias zonas pouco tempo após a emissão dessas ordens.

Conflito regional em escalada

A atual escalada está ligada à intensificação das hostilidades no Médio Oriente após o conflito iniciado em outubro de 2023 entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza, que rapidamente se expandiu para confrontos transfronteiriços entre Israel e o Hezbollah, no sul do Líbano.

Apesar de um cessar-fogo acordado em 2024, ataques continuaram a ocorrer de forma quase diária. Segundo organizações humanitárias, pelo menos 127 civis foram mortos no Líbano durante o período em que o cessar-fogo esteve oficialmente em vigor.

A tensão agravou-se ainda mais após os acontecimentos de 2 de março de 2026, quando o Hezbollah lançou novos ataques contra Israel, alegadamente em resposta ao assassinato do líder supremo iraniano Ali Khamenei, após uma operação militar atribuída aos Estados Unidos e a Israel no Irão.

A Amnistia Internacional afirma ter documentado, desde 2023, ataques ilegais contra civis e infraestruturas civis, incluindo o uso de fósforo branco em áreas habitadas e a destruição extensiva de aldeias ao longo da fronteira libanesa. A organização também condenou disparos indiscriminados de foguetes por parte do Hezbollah contra áreas civis em Israel.

Para a organização de direitos humanos, todos estes episódios devem ser investigados como possíveis crimes de guerra, sublinhando que a impunidade em conflitos anteriores contribui para a repetição de violações graves.

Num contexto regional cada vez mais instável, a situação humanitária no Líbano ameaça deteriorar-se rapidamente, enquanto milhares de civis continuam a fugir da linha da frente de um conflito que ultrapassa as fronteiras do país.

 

Fontes:

Amnistia Internacional – https://www.amnesty.org
Conselho Norueguês para os Refugiados – https://www.nrc.no
Ministério da Saúde Pública do Líbano – https://www.moph.gov.lb
Relatórios sobre Direito Internacional Humanitário – Comité Internacional da Cruz Vermelha (ICRC) – https://www.icrc.org