Quando falamos da violência que acomete mulheres, é comum nos atermos ao presente. Estarrecidos, acompanhamos através dos noticiários casos como o de Tainara Souza Santos, de 31 anos, atropelada e arrastada por um quilômetro na Marginal Tietê, em São Paulo, pelo seu ex-companheiro, Douglas Silva, no dia 29 de novembro.

Tendo suas duas pernas amputadas, Tainara veio a óbito no dia 24 de dezembro, véspera de Natal, engrossando os números de feminicídios no país.

No entanto, embora os crimes contra as mulheres estejam sendo cada vez mais evidenciados, sobretudo com o amplo acesso à informação, não podemos nos esquecer da degradação sofrida pela mulher enquanto processo histórico. Em um breve retorno ao legado imposto à mulher pela cultura ocidental, notamos que a violência de gênero se perpetua sob o discurso da dominação masculina.

Na Grécia Antiga, por exemplo, as mulheres não tinham direitos jurídicos, não recebiam educação formal e eram proibidas de aparecer em público sozinhas. Foi também na Grécia Antiga que o poeta Hesíodo revelou o mito de Pandora: o mal personificado em forma de uma bela mulher. No mito que explica a origem da humanidade ao estilo de uma tragédia, Zeus cria a mulher como uma maldição para os homens, estabelecendo o equilíbrio entre o bem e o mal.

Com o advento da cultura judaico-cristã, a mulher, culpada pela expulsão dos homens do paraíso, torna-se aquela que deve obediência e submissão ao homem. Passado o tempo, a Igreja, através da Santa Inquisição, em junção com o Estado, foi responsável pela caça às bruxas entre os séculos XVI e XVII, levando à morte milhares de mulheres na Europa e no Novo Mundo.

Em sua obra História do Medo no Ocidente, Jean Delumeau aponta que, no começo da Idade Moderna, no Ocidente, a mulher foi identificada como “um perigoso agente de Satã”, não somente por homens da Igreja, mas também por leigos. Para o historiador francês, “a atitude masculina em relação ao ‘segundo sexo’ sempre foi contraditória, oscilando da atração à repulsão, da admiração à hostilidade”.

Em Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva, a filósofa Silvia Federici demonstra que, no início do sistema capitalista, a crise econômica, social e populacional na Europa gerou um movimento de apropriação do corpo feminino pelo Estado, em que o corpo da mulher foi colocado como uma “máquina de reprodução” a fim de prover a mão de obra necessária ao sistema.

O nome do livro de Federici, Calibã e a Bruxa, faz alusão aos personagens da obra A Tempestade, de William Shakespeare. Calibã é um homem negro escravizado e descrito como selvagem, filho da bruxa Sycorax. Ambos os personagens são tomados como símbolos do racismo e da misoginia, que sempre andaram de mãos dadas com o capitalismo.

É justamente sob a égide do capitalismo-patriarcalismo-racismo que o regime da dominação e exploração das mulheres pelos homens continua a se perpetuar. No livro A Dominação Masculina: a condição feminina e a violência simbólica, o sociólogo Pierre Bourdieu define a “imensa máquina simbólica que tende a ratificar a dominação masculina” como sendo aquela que estrutura a percepção e a organização de toda a vida social, incidindo sobre corpos e mentes, discursos e práticas sociais e institucionais, naturalizando as desigualdades entre homens e mulheres.

Em suma, manifestando-se de formas distintas ao longo da história, a violência que atinge os corpos femininos, que emudece vozes e castra desejos, reaparece prontamente sempre que a dominação masculina é posta à prova e a hierarquia dos gêneros ameaça ser abalada.

 

Carolina Rodrigues

Historiadora e Cientista Política