No entanto, embora os crimes contra as mulheres estejam sendo cada vez mais evidenciados, sobretudo com o amplo acesso à informação, não podemos nos esquecer da degradação sofrida pela mulher enquanto processo histórico. Em um breve retorno ao legado imposto à mulher pela cultura ocidental, notamos que a violência de gênero se perpetua sob o discurso da dominação masculina.
Na Grécia Antiga, por exemplo, as mulheres não tinham direitos jurídicos, não recebiam educação formal e eram proibidas de aparecer em público sozinhas. Foi também na Grécia Antiga que o poeta Hesíodo revelou o mito de Pandora: o mal personificado em forma de uma bela mulher. No mito que explica a origem da humanidade ao estilo de uma tragédia, Zeus cria a mulher como uma maldição para os homens, estabelecendo o equilíbrio entre o bem e o mal.
Com o advento da cultura judaico-cristã, a mulher, culpada pela expulsão dos homens do paraíso, torna-se aquela que deve obediência e submissão ao homem. Passado o tempo, a Igreja, através da Santa Inquisição, em junção com o Estado, foi responsável pela caça às bruxas entre os séculos XVI e XVII, levando à morte milhares de mulheres na Europa e no Novo Mundo.
Em sua obra História do Medo no Ocidente, Jean Delumeau aponta que, no começo da Idade Moderna, no Ocidente, a mulher foi identificada como “um perigoso agente de Satã”, não somente por homens da Igreja, mas também por leigos. Para o historiador francês, “a atitude masculina em relação ao ‘segundo sexo’ sempre foi contraditória, oscilando da atração à repulsão, da admiração à hostilidade”.
Em Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva, a filósofa Silvia Federici demonstra que, no início do sistema capitalista, a crise econômica, social e populacional na Europa gerou um movimento de apropriação do corpo feminino pelo Estado, em que o corpo da mulher foi colocado como uma “máquina de reprodução” a fim de prover a mão de obra necessária ao sistema.
O nome do livro de Federici, Calibã e a Bruxa, faz alusão aos personagens da obra A Tempestade, de William Shakespeare. Calibã é um homem negro escravizado e descrito como selvagem, filho da bruxa Sycorax. Ambos os personagens são tomados como símbolos do racismo e da misoginia, que sempre andaram de mãos dadas com o capitalismo.
É justamente sob a égide do capitalismo-patriarcalismo-racismo que o regime da dominação e exploração das mulheres pelos homens continua a se perpetuar. No livro A Dominação Masculina: a condição feminina e a violência simbólica, o sociólogo Pierre Bourdieu define a “imensa máquina simbólica que tende a ratificar a dominação masculina” como sendo aquela que estrutura a percepção e a organização de toda a vida social, incidindo sobre corpos e mentes, discursos e práticas sociais e institucionais, naturalizando as desigualdades entre homens e mulheres.
Em suma, manifestando-se de formas distintas ao longo da história, a violência que atinge os corpos femininos, que emudece vozes e castra desejos, reaparece prontamente sempre que a dominação masculina é posta à prova e a hierarquia dos gêneros ameaça ser abalada.
Carolina Rodrigues
Historiadora e Cientista Política