Durante décadas, o Ocidente construiu uma narrativa sólida: os Estados Unidos seriam o pilar da ordem liberal internacional, o guardião da democracia representativa e o garante de estabilidade global.
Essa narrativa moldou alianças, justificou intervenções e consolidou uma hegemonia política, económica e cultural sem paralelo.
Hoje, essa mesma narrativa encontra-se sob tensão. A era de Donald Trump não criou todos os problemas estruturais do poder americano, mas expôs fragilidades profundas. O unilateralismo, o afastamento de acordos multilaterais e a retórica confrontacional colocaram em causa a previsibilidade estratégica que durante décadas sustentou alianças como a NATO, pelo que o problema não é apenas diplomático e sim civilizacional.
O declínio relativo da hegemonia
Os dados são claros. Segundo o Fundo Monetário Internacional, a China já ultrapassou os Estados Unidos em Produto Interno Bruto medido por paridade de poder de compra. O equilíbrio económico global desloca-se lentamente para o eixo asiático. Paralelamente, relatórios do Stockholm International Peace Research Institute indicam que, embora os EUA mantenham a maior despesa militar do mundo, a diferença face à China está a diminuir.
A supremacia económica deixou de ser absoluta. A tecnológica é disputada. A diplomática fragmenta-se.
Resta, sobretudo, a supremacia militar.
A indústria que nunca perdeu
Os Estados Unidos continuam a dominar a cadeia completa da indústria da defesa: investigação, produção, exportação e influência geopolítica associada. O orçamento anual ultrapassa os 800 mil milhões de dólares, segundo o SIPRI.
Não é coincidência que o presidente Dwight D. Eisenhower tenha alertado, em 1961, para os perigos do “complexo militar-industrial”. A advertência parecia, na época, um exercício de prudência histórica. Hoje soa como profecia estratégica.
Quando a hegemonia económica vacila, a tentação de recorrer ao único domínio onde a vantagem permanece clara torna-se evidente.
E aqui emerge a questão inquietante: será a guerra a última âncora de influência americana?
Irão: o ponto de ignição
A tensão com o Irão permanece como um dos cenários mais delicados da geopolítica contemporânea. Após o abandono do acordo nuclear em 2018, as relações deterioraram-se de forma significativa. O Council on Foreign Relations tem alertado para o risco real de escalada militar, sublinhando que qualquer conflito teria impacto direto nos mercados energéticos, na estabilidade regional e na segurança europeia.
Uma guerra no Golfo não seria um episódio isolado. Seria um catalisador global.
E a pergunta torna-se moral antes de ser estratégica: que legitimidade restará ao discurso ocidental de defesa da paz e dos direitos humanos se a solução para o declínio for a confrontação permanente?
A erosão da autoridade moral
O poder não se mede apenas em porta-aviões. Mede-se em legitimidade, coerência e confiança.
A revista Foreign Affairs tem publicado análises recorrentes sobre o enfraquecimento da influência normativa americana. Quando a potência que criou as regras começa a relativizá-las, o sistema perde consistência.
Durante décadas, os valores da liberdade, da democracia e do Estado de direito foram apresentados como universais. Hoje, muitos aliados questionam se esses princípios continuam a orientar a ação externa americana ou se foram substituídos por cálculos imediatistas.
A história ensina que impérios raramente colapsam apenas por derrota externa. Colapsam por incoerência interna.
Um dilema histórico
O sistema constitucional norte-americano prevê mecanismos de controlo, incluindo o impeachment. Mas a questão transcende processos jurídicos. Trata-se de identidade estratégica.
Se a liderança americana se redefinir exclusivamente pela força militar, o custo será pago por todos: aliados pressionados a alinhar, economias afetadas por instabilidade crónica, sociedades divididas entre pragmatismo e princípios.
A Europa, incluindo Portugal, enfrenta um dilema silencioso. Continuar a seguir automaticamente ou afirmar uma autonomia estratégica coerente com os seus próprios valores fundadores?
Num mundo em transição para a multipolaridade, a liderança já não é sinónimo de domínio. É sinónimo de responsabilidade.
E um dia, inevitavelmente, os filhos perguntarão: o que fizeram quando perceberam que o mundo estava a mudar?
A resposta não será dada por discursos inflamados, mas por escolhas concretas.
Num tempo em que a liberdade, a igualdade e a fraternidade são desafiadas por forças centrífugas e tentações autoritárias, o debate público exige lucidez, coragem e pensamento crítico.
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