A medida, apresentada pelo Bahrein, pretendia responder ao agravamento da crise desencadeada pelo quase bloqueio da passagem por parte do Irão, num contexto de crescente hostilidade envolvendo os Estados Unidos e Israel. Contudo, aquilo que poderia ser um sinal de unidade internacional transformou-se num retrato claro da fragmentação global.
Entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, três — China, Rússia e França — manifestaram inicialmente oposição ao texto. Embora Paris tenha suavizado a sua posição após alterações na proposta, retirando o carácter obrigatório da intervenção, Pequim e Moscovo mantiveram o veto.
Este bloqueio não é apenas um gesto diplomático. É um sinal inequívoco de que o sistema multilateral enfrenta dificuldades crescentes para responder a crises complexas onde interesses estratégicos, económicos e militares se cruzam.
Ao mesmo tempo, China e Rússia anunciaram a intenção de avançar com uma nova proposta de resolução, focada não na proteção militar da navegação, mas na desescalada do conflito — uma abordagem que evidencia diferentes visões sobre segurança internacional.
O bloqueio quase total imposto pelo Irão já começou a produzir efeitos tangíveis: subida dos preços do petróleo, instabilidade nos mercados energéticos e um aumento da incerteza económica global.
A Agência Internacional de Energia tem alertado para o risco de esta situação evoluir para uma das maiores interrupções de fornecimento energético da história recente, com impacto direto em economias dependentes de importações energéticas, incluindo grande parte da Europa.
O que está em causa vai muito além de uma resolução bloqueada. Trata-se de uma disputa sobre o próprio modelo de governança global. De um lado, a lógica de intervenção e proteção militar das rotas comerciais. Do outro, a defesa de soluções diplomáticas e negociais.
Neste contexto, a ausência de consenso internacional pode ser interpretada como um vazio perigoso — um espaço onde decisões unilaterais ganham terreno e onde o risco de escalada militar aumenta.
A história mostra que os grandes conflitos raramente começam com declarações formais de guerra. Muitas vezes, nascem de impasses, mal-entendidos e decisões tomadas em ambientes de elevada tensão.
O Estreito de Ormuz tornou-se, mais uma vez, o epicentro de uma disputa que coloca em causa não apenas a segurança energética, mas também a capacidade das instituições internacionais de garantir estabilidade e paz.
Num mundo interdependente, onde uma decisão num estreito marítimo pode repercutir-se no preço do combustível em Lisboa ou no custo dos alimentos em África, a responsabilidade coletiva torna-se ainda mais evidente.
Como lembrava Henry Kissinger, “a ordem internacional não é construída apenas pelo poder, mas pela capacidade de o moderar”. Hoje, essa capacidade está a ser testada como há muito não acontecia.
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