Entre a diplomacia externa e a contestação interna: Governo enfrenta pressão nas ruas e no palco europeu
Declaração conjunta sobre o Irão surge no mesmo dia em que milhares protestam em Lisboa contra a reforma laboral “Trabalho XXI”
O Presidente do Conselho Europeu, António Costa, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, emitiram uma declaração conjunta sobre os recentes desenvolvimentos no Irão, sublinhando a necessidade de contenção, estabilidade regional e respeito pelo direito internacional.
Enquanto, no plano externo, a União Europeia procurava afirmar uma posição diplomática firme face à escalada de tensões no Médio Oriente, em Lisboa o foco estava noutra frente de conflito: a contestação social à reforma laboral promovida pelo Governo de Luís Montenegro.
No sábado, milhares de pessoas desceram às ruas entre o Cais do Sodré e o Rossio, numa manifestação convocada pela CGTP contra o anteprojeto de reforma laboral denominado “Trabalho XXI”. Durante cerca de uma hora de percurso, os protestos fizeram-se ouvir com palavras de ordem dirigidas às alterações previstas na legislação laboral. “É só mais um empurrão e o pacote vai ao chão” e “o público é de todos, o privado é só de alguns” foram algumas das frases ecoadas ao longo da marcha.
O secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira, classificou o pacote como “negativo para o mundo do trabalho e para os trabalhadores”, exigindo a sua retirada. Segundo o dirigente sindical, o Governo conta com o apoio parlamentar do Chega e da Iniciativa Liberal para dar continuidade à proposta legislativa.
O anteprojeto “Trabalho XXI” foi apresentado a 24 de julho de 2025 pelo executivo PSD/CDS-PP. A ministra do Trabalho, Rosário Palma Ramalho, já sinalizou a intenção de submeter a proposta ao Parlamento, apesar da oposição frontal das centrais sindicais, que consideram as alterações um ataque aos direitos laborais consolidados.
A contestação culminou, em dezembro de 2025, numa greve geral convocada conjuntamente pela CGTP e pela UGT. Apesar da mobilização inédita entre as duas estruturas sindicais, o processo legislativo prosseguiu.
Do lado empresarial, as confederações acolheram positivamente a reforma, ainda que tenham admitido margem para ajustamentos. Já esta semana, após reuniões técnicas com a UGT e as quatro confederações patronais, Rosário Palma Ramalho referiu terem sido identificadas “áreas de conciliação” em matérias como parentalidade, inteligência artificial e novas tecnologias, ressalvando, contudo, tratar-se apenas de consensos ao nível técnico.
Está agendada para a próxima terça-feira uma reunião plenária da Concertação Social, que poderá revelar se existe espaço para compromisso político ou se o confronto social tenderá a intensificar-se.
Num dia marcado por uma posição europeia sobre o Irão e por forte contestação interna, o Governo vê-se confrontado com duas frentes distintas: a diplomacia internacional e a estabilidade social doméstica. O desfecho da reforma “Trabalho XXI” poderá revelar-se determinante para o equilíbrio político nos próximos meses.