Segundo a organização, cerca de 10 mil milhões de animais são criados anualmente em sistemas intensivos apenas nos Estados Unidos, um número superior à população humana mundial.
A denúncia é feita em termos emocionalmente fortes, procurando chamar a atenção para práticas controversas associadas ao setor.
Entre os exemplos citados estão a destruição de pintos recém-nascidos considerados economicamente “inúteis”, leitões separados das mães em idade precoce e galinhas poedeiras alojadas em espaços extremamente reduzidos, onde frequentemente não conseguem expressar comportamentos naturais.
Embora estes relatos sejam frequentemente alvo de debate — e existam diferenças significativas entre explorações, estados e regulamentações — o tema do bem-estar animal tem vindo a ganhar crescente relevância no espaço público, particularmente na Europa e na América do Norte.
Mas o debate não se limita à ética animal.
A Friends of the Earth sustenta que os impactos das explorações pecuárias industriais estendem-se às comunidades humanas vizinhas, através da poluição atmosférica, contaminação dos solos e degradação dos cursos de água provocadas pela concentração intensiva de resíduos pecuários.
Diversos estudos científicos têm apontado para riscos ambientais associados às chamadas Concentrated Animal Feeding Operations (CAFOs), particularmente relacionados com emissões de metano, nitratos nas águas subterrâneas e resistência antimicrobiana decorrente do uso excessivo de antibióticos em alguns modelos de produção pecuária.
Segundo dados da Food and Agriculture Organization, o setor pecuário representa aproximadamente 14,5% das emissões globais de gases com efeito de estufa, tornando-se uma variável central nas discussões sobre alterações climáticas.
Face a este cenário, a Friends of the Earth defende um reforço dos modelos de agricultura biológica (orgânica), argumentando que estes permitem reduzir significativamente muitos dos abusos denunciados.
Nos sistemas certificados de agricultura orgânica, os animais são geralmente obrigados a ter acesso ao ar livre, maior espaço de circulação e condições que favoreçam comportamentos naturais, além de restrições rigorosas ao uso de antibióticos, hormonas artificiais e determinados pesticidas.
A organização sublinha ainda que a alimentação dos animais nestes sistemas deve obedecer a critérios mais exigentes, incluindo ração produzida sem centenas de substâncias químicas autorizadas na agricultura convencional.
Contudo, ambientalistas criticam aquilo que consideram ser uma tendência política contrária nos Estados Unidos.
Na sua campanha de mobilização, a Friends of the Earth acusa o United States Department of Agriculture — sob a administração de Donald Trump — de reduzir programas de apoio a pequenos agricultores e produtores biológicos, favorecendo, alegadamente, interesses ligados ao agronegócio intensivo.
Estas acusações inserem-se num debate político mais amplo sobre os modelos agrícolas do futuro: produção em escala versus sustentabilidade, produtividade versus bem-estar animal, preço versus impacto ambiental.
Enquanto defensores do agronegócio argumentam que a produção intensiva é necessária para alimentar uma população mundial crescente, críticos respondem que o custo ambiental, ético e sanitário desse modelo poderá tornar-se insustentável.
A questão central talvez seja esta: que tipo de sistema alimentar queremos construir?
Num mundo confrontado simultaneamente com crises climáticas, perda de biodiversidade, insegurança alimentar e exigências crescentes dos consumidores, o debate sobre agricultura deixou de ser apenas agrícola — tornou-se civilizacional.
O apelo lançado pela Friends of the Earth neste Dia Mundial do Ambiente é claro: apoiar modelos agrícolas mais sustentáveis, reduzir impactos ambientais e repensar a forma como a humanidade produz aquilo que come.
Porque, no fim de contas, a relação entre seres humanos, animais e planeta poderá dizer muito sobre o futuro que estamos dispostos — ou não — a construir.
Fontes:
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