I
Mas se, num determinado momento histórico e num certo espaço social, pelo menos dois se mantêm, há mistura de traços culturais, e por norma dependendo do poder político, há dominação pública de um padrão sobre o outro. Ou sobre vários. O resultado das dinâmicas vividas ao longo de mais de um século em África, produzem alteração de fronteiras e, em cadeia, vários decénios depois, leva à proliferação de mais de cinco dezenas de Estados chamados modernos. Mas também, como noutros lugares do mundo, há separação de comunidades e de «povos», e por isso há a respectiva submissão de cada um, a padrões culturais diferentes. Entre arranjos e combinações -- a matemática também pode aqui contar - pode haver a articulação de traços de vários padrões culturais e, em especial nas ilhas, levar até à definição de crioulo e de crioulidade em vários lugares do mundo. Como? Através de uma única Administração, num espaço social jurìdicamente demarcado, dependente de um Poder imperial que impõe em muitos decénios um processo civilizatório e um só padrão cultural. Nesses espaços sociais submetidos a Poderes Imperiais que, bem mais tarde conquistam a nacionalidade, na sua esmagadora maioria: (a) mantêm o território; (b) como ponto de partida aceitam o padrão cultural dominante; e (c) incentiva ou não a retoma do leque de padrões antigos submetidos ao seu respectivo Poder imperial. Com excepções, há outro aspecto, geral a todos os continentes: o de muitas zonas costeiras de modo parcial, e de ilhas e arquipélagos na sua totalidade, terem o mar como fronteira. Nas ilhas, o padrão cultural resultante das relações económicas e sociais sai fortalecido, pois sem fronteiras terrestres, há menos meios de influência cultural externa. Logo melhores condições para, via Instrução e Educação social ou não, poder questionar contrapontos entre cultura do poder e culturas populares. Como é o caso das dez ilhas da República de Cabo Verde. Em contraponto às Ilhas Canárias ou a Santa Helena, ou, pelo menos até aos anos 70 do século XX, em confluência com Madagascar, e algumas das Ilhas do Oceano Índico à ilharga de Atananarivo.
II
Como é usual neste tema, entra-se no contraponto entre qual é a complexidade que resulta do choque global, regional e local entre povos e culturas; e qual o pêso da história, via tráfico de escravos, violência do tempo imperial, desigualdade e sofrimento, através do Oceano Atlântico, durante séculos.
Sobre Cabo Verde, até hoje aprendi como exemplo da sua história, a relevância do último decénio do século XIX. Através de dois aspectos que mudam a paisagem económica e cultural do Mindelo. Um, é o aspecto decisivo que se impõe na transformação das comunicações e das consequentes relações políticas, sociais, económicas e culturais. É a instalação de um Cabo submarino, conectado com capitais ingleses. Outro, é a conexão entre um tempo de fome e de muitas dificuldades para grande parte da população, e o facto de no caso do Mindelo as populações serem colocadas na periferia do burgo por causa da nova paisagem tecnológica. Até hoje, a minha reflexão não ultrapassava tal datação, via histórias de família e de amigos. Não falo investigação sobre a questão, mas hoje, a acreditar no que acabo de ler, passo a ter informação até agora por mim desconhecida: 1.º, o Cabo submarino e a penetração de capital inglês transforma Mindelo num dos maiores centros de comunicações do Oceano Atlântico, via um Acordo em 1872 e a Inauguração dessa secção do Cabo ligando a Ilha da Madeira a Cabo Verde, como um dos elos de ligação entre Portugal e o Brasil, é em 1874-03-24; 2.º, A cidade do Mindelo ao expandir a rede de Cabos submarinos «amarrados» - chega a ter nove - via acordo com outros Poderes, consegue, no começo do século XX, romper com a hegemonia britânica, via acordo com uma companhia italiana. E o que me é retratado como forte alteração no modo de vida do burgo, é que ao receber centenas de funcionários de companhias inglesas e trabalhadores do Mindelo, levam a evidenciar os seguintes factos: (a) a presença daquelas companhias geram, entre caboverdianos, os primeiros postos de trabalho assalariados e qualificados, como a profissão de telegrafista; (b) é via elementos das empresas inglesas que aparece o futebol, o golfe, o criquete e o ténis em Cabo Verde, influenciando hábitos locais; (c) é por intermédio de ingleses que são construídas casas de telhados de ferro e varandas em madeira, edifícios industriais e armazéns de carvão que alteram por completo a paisagem global da cidade; 3.º, a localidade é apontada como cosmopolita, por haver um padrão cultural obrigatório por oficial; um padrão novo ligado à nova economia e hábitos de resguardo em clubes, grupos, e convivência restrita à própria comunidade, até com cemitério próprio; e o padrão resultante da combinação entre padrões culturais degenerados da imigração, que se vai «estabilizando», assente na estrutura submetida ao Poder oficial. Mas com maior uniformidade cultural, familiar e social, face ao status quo económico, vai afinal gerar novo movimento ao longo dos anos: a emigração.
III
Face a tal permanência, é nessas condições que dá para apoiar mais uma «visão do mundo construtora de pontes e de diálogo»? Do meu ponto de vista sim. Como componente efectiva do leque de padrões culturais que se têm assumido em todo mundo de modo afirmativo. Impondo uma acção expansionista? Há que haver sinais de ponderação. Porque o crioulo de Cabo Verde é produto da série de padrões e traços culturais que convergem para as Ilhas durante séculos submetidas a um só padrão cultural oficial, e porque o crioulo se vai mantendo como processo de autonomização da nova língua. Mas ir atrás da liberdade «popular» e permitir – ou aceitar - que só o «povo» constrói uma forma de expressão em si mesmo não basta! Cabo Verde deve inserir-se internacionalmente: 1. na Comunidade de Estados – a CEDEAO - da região do continente em que se insere; 2. na Comunidade de Estados de Língua Oficial portuguesa - CPLP - em todos os sectores como «dever», à partida só via património cultural como «interesse» de elites; e 3. na procura de esboços ou já permanentes modos de comunicar com falas-produto da mistura de padrões culturais locais e imperiais, incentivando a sua projecção agregada ao crioulo de Cabo Verde. Isso significa haver uma crioulidade cuja estrutura de origem – socialmente «de cima para baixo» - é a do «povo português» sob Poder imperial à qual Cabo Verde se submete muitos decénios; e 4. um último patamar, mais complexo, que entra nas preocupações da crioulidade Atlântica, tem a ver com a mestiçagem cultural e/ou orgânica como produto, sendo que a sua sustentação de base não é só um padrão cultural imposto, o português, de colonos e naturais da terra sob Poder Imperial, passível de se consolidar no âmbito da CPLP. De modo mais abrangente, há outros padrões culturais sob Poder Imperial antigo, que também entram na crioulidade. Com desigual força política embora, como o crioulo advindo da mistura de línguas locais e regionais, ao francês, espanhol, holandês, inglês ou outros. Que junta crioulidades atlânticas de origens diversas, e mostra a vontade de inserção e afirmação em associações internacionais em simultâneo. Não só como nacional, como é o caso de Cabo Verde, mas como legítima minorias culturais.
É aqui que aparece uma consideração final com uma clara interrogação e um ponto prévio a uma qualquer reflexão ou perspectiva: no caso da área Atlântica, o único padrão cultural, à partida nacionalizador, na Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, utilitário em ganhos entre negócios, entendimentos e acções culturais, é o antigo padrão cultural do «povo português», a um plano; do Poder imperial, a outro plano. Como escolha ponderada na defesa de políticas culturais, há duas abordagens principais: a da chamada lusofonia e a de querer em definitivo acabar com todos «os vestígios do colonialismo». Nunca recusando outras alternativas, tais escolhas principais devem ser tidas em conta no próximo futuro. Mas…é crível continuar objectivamente a manter ou até aumentar, níveis de analfabetismo, um tipo de Instrução e de Educação social, no sentido de só exigir a máxima liberdade na comunicação de cada «povo»? Contribuindo para que se desestruture por completo, a ainda única língua nacionalizadora ou «ponte» entre todas as línguas regionais de espaços sociais, em prol de uma língua similar - também construída sob a débil Instrução recebida ao longo dos tempos - à que é socialmente dominante hoje, em Cabo Verde? Eugénio Monteiro Ferreira, Lisboa, 31 de Maio de 2026.