Apesar dos avanços tecnológicos e regulatórios registados desde o fim do apartheid, a mineração na África do Sul permanece entre as mais perigosas do mundo, sobretudo devido à profundidade extrema de muitas minas, às condições geológicas complexas e à pressão constante por produtividade.
Grande parte das minas sul-africanas, especialmente as de ouro e platina, operam a profundidades superiores a 3.000 metros. Estas condições expõem os trabalhadores a riscos elevados de desabamentos, sismos induzidos pela atividade mineira, libertação de gases tóxicos e temperaturas extremas.
A estes fatores juntam-se questões históricas de desigualdade laboral. Durante décadas, a mão de obra mineira foi composta maioritariamente por trabalhadores negros, mal remunerados, alojados em condições precárias e com acesso limitado a cuidados de saúde adequados. Embora o enquadramento legal tenha evoluído, muitos dos seus efeitos estruturais persistem.
Segundo dados do Department of Mineral Resources and Energy, o número de mortes em minas sul-africanas tem vindo a diminuir de forma gradual nas últimas duas décadas, fruto de políticas de segurança mais rigorosas. Ainda assim, todos os anos continuam a registar-se dezenas de mortes e centenas de feridos graves.
Em vários casos recentes, os acidentes estiveram associados a falhas de segurança, equipamentos obsoletos, erros humanos induzidos por fadiga e pressão operacional, bem como a fenómenos sísmicos associados à exploração em profundidade. Cada incidente reacende o debate público sobre a real eficácia das políticas de “zero harm”, frequentemente anunciadas pelas grandes empresas do setor.
Por detrás de cada número há famílias, comunidades e regiões inteiras afetadas. Muitos mineiros são migrantes internos ou provenientes de países vizinhos como Lesoto, Moçambique ou Zimbabué. Um acidente de trabalho não representa apenas a perda de um salário, mas frequentemente o colapso económico de agregados familiares inteiros.
Como afirmou o antigo arcebispo Desmond Tutu, num contexto mais amplo de justiça social:
“Não basta remover as correntes da opressão; é preciso criar condições para uma vida digna.”
A indústria mineira sul-africana enfrenta hoje um duplo desafio. Por um lado, manter a competitividade global num contexto de transição energética e pressão ambiental. Por outro, garantir condições de trabalho verdadeiramente seguras e humanas.
Especialistas apontam como fundamentais:
Investimento contínuo em tecnologia de monitorização sísmica e automação.
Formação permanente dos trabalhadores em segurança e gestão de risco.
Reforço da fiscalização independente e transparência na comunicação de acidentes.
Envolvimento das comunidades e dos sindicatos na definição de políticas de segurança.
Sem uma mudança cultural profunda, que coloque a vida humana acima da produção a curto prazo, os acidentes continuarão a ser tratados como “custos operacionais” inevitáveis — uma lógica cada vez menos aceitável numa sociedade que se quer ética e sustentável.
A mineração continuará a ser central para a África do Sul. Mas o verdadeiro progresso do setor não se mede apenas em toneladas extraídas ou receitas geradas. Mede-se, sobretudo, pela capacidade de garantir que quem desce diariamente ao subsolo regressa vivo à superfície.
A segurança no trabalho mineiro não é apenas uma questão técnica. É uma questão de justiça, dignidade humana e responsabilidade coletiva.
Department of Mineral Resources and Energy (DMRE), África do Sul – Relatórios oficiais de segurança mineira
https://www.gov.za/government/department-mineral-resources-and-energy
International Labour Organization (ILO) – Mining Safety and Health
https://www.ilo.org/global/topics/safety-and-health-at-work
Bench Marks Foundation – Relatórios sobre mineração e direitos humanos na África Austral
https://benchmarks.org.za
Human Rights Watch – “What Do We Get Out of It?”: Mining and Human Rights in South Africa
https://www.hrw.org