Por Fernando Heitor Francisco
(antigo Deputado e Vice-Presidente da Assembleia Nacional de Angola)
Presidentes da República, sejam eles africanos, europeus, asiáticos, norte ou latino-americanos, raramente protagonizam saídas políticas com esta dimensão simbólica. Estamos a falar de líderes de todas as origens: pretos, mulatos, europeus, chineses, indianos, muçulmanos, católicos, judeus, cristãos ou mesmo agnósticos.
Contudo, é preciso olhar para esta situação com alguma prudência.
Com todo o respeito devido ao Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, a quem muitos angolanos tratam com simpatia por “Tio Marcelo”, não podemos ignorar a relação particularmente próxima, por vezes até excessivamente amistosa, que manteve com alguns Presidentes e Executivos de países como Angola e Moçambique.
Ora, muitos desses dirigentes foram, ao longo dos anos, amplamente mencionados em relatórios internacionais e em análises políticas como estando ligados, directa ou indirectamente, a práticas de corrupção, utilização indevida do erário público ou apropriação indevida da res publica, expressão latina que significa, simplesmente, a coisa pública.
Diante disso, torna-se difícil aceitar de forma imediata e sem reservas algumas conclusões mais entusiásticas sobre o legado político do Presidente português.
A justiça, como sabemos, é lenta.
Investiga durante anos antes de chegar a conclusões definitivas.
Por isso, convém recordar uma antiga sabedoria popular que atravessa gerações: “Se queres saber quem alguém é verdadeiramente, observa quem são os seus melhores amigos e como se comporta quando está entre eles.”
Há ainda outra questão que merece reflexão.
Quantas viagens oficiais ao estrangeiro realizou este Presidente português ao longo do seu mandato?
Quantas dessas deslocações, incluindo aos países da CPLP, foram feitas com todos os protocolos, comitivas e custos suportados pelo Orçamento Geral do Estado português?
Não se trata de uma crítica isolada, mas de um convite à análise.
Por isso, talvez seja prudente deixar primeiro que as lágrimas do saudosismo marcelista sequem.
Depois, com o distanciamento que o tempo sempre traz, talvez daqui a cinco ou dez anos, será possível avaliar melhor o verdadeiro significado político desta presidência.
Com ou sem CHEGA.
Para bom entendedor…
Um abraço do Kota FH
Benguela, Angola.