Na segunda-feira, 18 de maio, as Forças Armadas israelitas intercetaram, ao largo do Chipre, dezenas de embarcações que integravam a flotilha Global Sumud, partida da Turquia na semana anterior com destino à Faixa de Gaza. A operação estendeu-se por dois dias e envolveu quase 50 barcos transportando mais de 400 ativistas de várias nacionalidades.
A bordo do Tenaz, uma das embarcações da flotilha, seguiam dois médicos portugueses: Maria Beatriz Bartilotti Matos e Gonçalo Reis Dias. Ambos foram detidos pelas forças israelitas em águas internacionais. A última embarcação da flotilha, o veleiro Sirius, foi intercetada na tarde de terça-feira, por volta das 14h30, hora de Lisboa, completando a operação militar. Os ativistas detidos deverão ser transferidos para um porto israelita para início do processo de repatriamento.
Face à detenção dos dois cidadãos portugueses, o Ministério dos Negócios Estrangeiros convocou o embaixador israelita em Lisboa para transmitir o protesto formal do Estado português, classificando a interceção como uma violação do direito internacional. O ministro Paulo Rangel afirmou que o Governo acompanha a situação através da embaixada em Telavive e dos serviços consulares.
O Bastonário da Ordem dos Médicos, por sua vez, declarou que o Estado português está a trabalhar para garantir a integridade, a segurança e o repatriamento dos dois profissionais de saúde.
Mas para muitos, estas declarações ficam aquém do que a gravidade da situação exige.
O Grupo Parlamentar do Partido Socialista enviou uma pergunta formal ao ministro Paulo Rangel, solicitando que o Governo identifique, com precisão, as diligências diplomáticas e consulares desencadeadas após a detenção. Os socialistas manifestam "dúvidas quanto ao paradeiro, condições de detenção e acesso consular dos cidadãos portugueses", e pretendem saber que ações concretas foram iniciadas junto das autoridades israelitas para confirmar a localização, o estado de saúde e as condições em que Beatriz e Gonçalo se encontram.
Aos relatos institucionais juntam-se os testemunhos das próprias famílias, que descrevem uma "aparente passividade das autoridades portuguesas" e apontam a insuficiência da informação prestada. Os familiares referem ainda denúncias sobre o uso de meios militares e drones durante a operação israelita, que resultou na detenção de dezenas de cidadãos de múltiplas nacionalidades, posteriormente transferidos para território israelita.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, justificou a operação com a necessidade de impedir o "isolamento dos terroristas do Hamas", o grupo islamita palestiniano que, em 2023, desencadeou o atual conflito com o ataque a Israel. Embora um cessar-fogo tenha entrado em vigor em outubro do ano passado, israelitas e palestinianos continuam a acusar-se mutuamente de violações successivas do acordo. Organizações humanitárias, por seu lado, denunciam que Israel mantém restrições à entrada de ajuda na Faixa de Gaza.
Este incidente não é o primeiro a envolver cidadãos portugueses em confronto direto com a política de bloqueio marítimo imposta por Israel. A recorrência destes episódios — e a perceção, cada vez mais partilhada, de que a resposta diplomática portuguesa tem sido insuficiente — coloca o Governo perante uma questão que vai além do imediato: que posição pretende Portugal assumir, com clareza e consequência, perante um conflito que continua a ceifar vidas e a desafiar as normas do direito internacional?
A resposta a essa pergunta não cabe apenas numa convocação de embaixadores. Exige decisões.