Uma alegada guerra pelo controlo do tráfico de droga no centro de Lisboa terá estado na origem dos disparos registados na madrugada de ontem na Rua do Benformoso, em pleno Martim Moniz.
O episódio, que deixou três homens feridos, um deles em estado grave, reacendeu a preocupação dos moradores e das autoridades quanto à reorganização do submundo do narcotráfico na capital.
A tensão terá escalado após a condenação, em outubro de 2024, de Samir, identificado pelas autoridades como líder do denominado “Grupo de Chelas”, a 19 anos de prisão. Segundo fontes ligadas à investigação, a sua ausência física no terreno abriu espaço a disputas internas e externas pelo controlo do negócio da droga, particularmente do crack, numa faixa territorial que se estendia da Mouraria até Chelas.
Ataque em carro em andamento
De acordo com informações recolhidas no local, os disparos foram efetuados a partir de um veículo em movimento. Os atacantes colocaram-se em fuga e, até ao momento, permanecem por deter, embora pelo menos um suspeito já esteja identificado.
Uma pistola foi entretanto recuperada pela Polícia Judiciária, que realizou perícias no local. As autoridades trabalham com a hipótese de tentativa de tomada de controlo territorial por um grupo rival considerado “perigoso”, segundo fontes policiais.
Entre as vítimas está alegadamente um operacional próximo de Samir, que terá mantido atividade no terreno mesmo após a condenação do líder. O homem encontra-se hospitalizado em estado crítico.
Os outros dois feridos são distribuidores de comida, ambos imigrantes, que passavam na rua no momento do ataque e foram atingidos acidentalmente. Já tiveram alta hospitalar.
Um império construído a partir de Chelas
Natural de Aveiro e com raízes guineenses, Samir fixou-se há vários anos no Bairro do Condado, em Chelas, mais concretamente na Zona J. A partir daí, segundo a investigação, terá estruturado uma rede dedicada ao comércio de cocaína, heroína, canábis e, sobretudo, crack.
O seu nome circulava há pelo menos uma década nos meios policiais, mas só a partir de junho de 2021 terá entrado formalmente nos radares das autoridades antidroga, perante “fortes suspeitas” de liderar o grupo que dominava o mercado de crack na região da Grande Lisboa.
De acordo com os autos do processo, o próprio alegava controlar o território entre a Mouraria e Chelas, uma zona estratégica pela densidade populacional, fluxo turístico e vulnerabilidades sociais.
Moradores em pânico
O episódio deixou os residentes do Martim Moniz em estado de choque. A zona, já associada a problemas de tráfico e insegurança, voltou a ser palco de violência armada, reforçando receios quanto à escalada de confrontos entre grupos rivais.
As autoridades continuam a investigação, procurando determinar se os disparos representam um episódio isolado ou o início de uma nova fase de confrontos pelo domínio do tráfico no centro da capital.
O caso volta a colocar sob escrutínio a capacidade de contenção das redes criminosas que, mesmo com líderes encarcerados, conseguem manter influência e operar a partir do interior do sistema prisional, segundo suspeitam os investigadores.
A prioridade, neste momento, passa por localizar os autores do ataque e evitar novos episódios de violência numa das zonas mais simbólicas e movimentadas de Lisboa.