Organizado em parceria com a Associação das Nações Unidas em Portugal, o evento reuniu 39 delegações, cinco organizações e sete órgãos de comunicação social estudantis, todos empenhados num exercício intenso de debate, negociação e construção de consensos. O tema central desta edição, “Soberania Azul: O Futuro dos Mares e do Ártico”, trouxe para o centro da discussão questões críticas como a governação dos oceanos, a exploração de recursos naturais e os impactos das alterações climáticas nas regiões polares.
Mais do que uma simulação académica, o Model UN coloca os participantes perante um desafio exigente: abandonar as suas próprias convicções para representar fielmente os interesses estratégicos de um país. Como sublinha Mário Parra da Silva, secretário-geral da associação organizadora, trata-se de “uma aproximação concreta ao mundo da diplomacia, da negociação e da análise de problemas complexos de carácter global”.
Este exercício exige competências que vão muito além do conhecimento teórico. Oratória, pensamento crítico, capacidade de investigação e inteligência emocional tornam-se ferramentas indispensáveis. Segundo Ana Luísa Monteiro, estudante brasileira que presidiu aos trabalhos, a experiência permite desenvolver competências muitas vezes difíceis de adquirir apenas em contexto académico tradicional.
No plenário, as dinâmicas reproduzem com notável fidelidade a realidade internacional. Alianças formam-se, blocos estratégicos emergem e os conflitos de interesse tornam-se evidentes. Henrique Marques, participante português que representou a Indonésia, descreve um ambiente “acirrado”, onde as negociações exigem rapidez, clareza e capacidade de adaptação.
A presença de estudantes de diferentes nacionalidades e contextos enriquece o debate. Odara Brito, em representação de Cabo Verde, trouxe para a discussão os desafios específicos dos pequenos Estados insulares, frequentemente vulneráveis às alterações climáticas e às dinâmicas geopolíticas globais. Já Marta Barbeitos, delegada da Dinamarca, destacou a importância de encontrar pontos de convergência: “ouvir várias opiniões e conseguir integrá-las para garantir o bem-estar comum”.
Este tipo de simulação está alinhado com práticas internacionais de ensino em Relações Internacionais. Universidades como Harvard University ou Georgetown University integram o Model UN como ferramenta pedagógica essencial para a formação de futuros diplomatas, analistas políticos e decisores globais.
A relevância do Model UN vai além da sala de aula. Para Ricardo Ramos Pinto, presidente do ISCSP, iniciativas como esta reforçam a ligação entre teoria e prática, permitindo aos estudantes testar vocações e compreender a complexidade das carreiras internacionais.
Há, contudo, uma dimensão mais profunda. O Model UN contribui para a formação de uma consciência global, promovendo valores como o diálogo, a cooperação e a resolução pacífica de conflitos. Num mundo cada vez mais polarizado, marcado por tensões geopolíticas e desafios transnacionais, estas competências assumem um valor estratégico.
Como reconhecem vários participantes, o evento não é apenas um exercício académico, mas o início de um percurso. O chamado “bichinho da ONU” traduz uma ambição legítima de integrar estruturas internacionais e contribuir para a governação global.
O Model UN em Lisboa confirma uma tendência crescente: a valorização de experiências imersivas na formação académica. Ao simular a complexidade do sistema internacional, estes jovens não apenas aprendem sobre o mundo — aprendem a agir nele.
Num tempo em que a diplomacia enfrenta desafios sem precedentes, da crise climática aos conflitos armados, investir na formação de líderes capazes de dialogar, negociar e construir consensos não é apenas desejável. É essencial.
Como escreveu Kofi Annan, antigo secretário-geral da ONU:
“Num mundo interdependente, o destino de cada nação está ligado ao destino de todas as outras.”
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