Entre o humor mordaz e a inquietação social, chega a Lisboa um espetáculo que promete colocar o público perante uma das questões mais urgentes do nosso tempo: o que acontece aos artistas quando a tecnologia começa a substituir a própria voz humana?

A peça Da Boca Pra Fora, de Jonathan Lewis e Miranda Foster, estreia a 3 de junho no Teatro São Luiz, onde permanecerá em cena até 14 de junho, na Sala Mário Viegas. Com encenação de Flávio Gil, o espetáculo reúne em palco Sara Barradas, Marta Gil, João Cabral, Diogo Martins, André Leitão e Rui Rebelo.

À primeira vista, trata-se de uma comédia sobre quatro atores que partilham apartamento no Bairro Alto. Contudo, rapidamente se percebe que Da Boca Pra Fora é também um retrato social profundamente contemporâneo, onde a fragilidade emocional, a precariedade laboral e o avanço da inteligência artificial se cruzam de forma inquietante.

António, o mais velho do grupo, tenta escolher as oito músicas que definem a sua vida, num exercício quase existencial de memória e sobrevivência emocional. Bia vive o afastamento da filha após uma separação dolorosa. Telma enfrenta crises de ansiedade e o medo de regressar ao palco. Carlos procura desesperadamente trabalho enquanto tenta esconder a sua surdez. Unidos pela precariedade, sobrevivem através de trabalhos de dobragem, até descobrirem que até essas vozes podem ser substituídas por sistemas gerados por inteligência artificial.

É precisamente aqui que o espetáculo ganha uma dimensão política e social particularmente relevante. Num momento histórico em que algoritmos começam a substituir profissões criativas, Da Boca Pra Fora coloca uma questão essencial: poderá a tecnologia reproduzir emoção, vulnerabilidade, humanidade?

A ameaça de substituição leva os protagonistas a convocarem uma greve. Não apenas uma greve laboral, mas uma espécie de resistência simbólica contra a desumanização do trabalho artístico. O teatro transforma-se, assim, num espaço de reflexão sobre o valor da criação humana numa sociedade cada vez mais automatizada.

A peça dialoga diretamente com debates internacionais que atravessam atualmente o cinema, a televisão e as artes performativas. Em Hollywood, por exemplo, a utilização de inteligência artificial esteve no centro das recentes greves dos argumentistas e atores norte-americanos, preocupados com a utilização das suas vozes, rostos e performances sem consentimento ou remuneração justa. O espetáculo chega, por isso, num contexto particularmente sensível e atual.

Mas a força de Da Boca Pra Fora não reside apenas na crítica tecnológica. A peça mergulha profundamente nas fragilidades emocionais dos seus personagens, revelando os medos, as frustrações e os sonhos de uma geração artística marcada pela instabilidade. A comédia surge como mecanismo de sobrevivência perante um quotidiano emocionalmente duro.

A entrada de Rodrigo, um jovem aspirante a ator, introduz ainda uma camada geracional importante. Num mundo onde os mais experientes temem desaparecer e os mais novos procuram desesperadamente um lugar, o espetáculo questiona o próprio futuro das profissões criativas.

O teatro assume aqui a sua função mais nobre: provocar pensamento crítico sem perder humanidade. Num tempo dominado pela velocidade digital e pela automatização crescente, Da Boca Pra Fora recorda-nos que a arte continua a ser um território profundamente humano, feito de fragilidade, imperfeição e emoção real.

Os ensaios de imprensa decorrerão na Casa do Artista e no Teatro São Luiz nos dias 25 e 29 de maio, permitindo acompanhar de perto um dos espetáculos portugueses mais pertinentes desta temporada teatral.

Como escreveu Hannah Arendt, “a tecnologia nunca deve substituir o julgamento humano, porque é na condição humana que reside a verdadeira liberdade”.

Fontes

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