Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística de Moçambique, o país registou, em Maio, uma inflação mensal de 2,32%, uma inflação acumulada de 5,19% e uma inflação homóloga de 7,22%. Os números confirmam aquilo que muitas famílias já sentem no bolso: ir ao mercado tornou-se mais caro e a cesta básica exige cada vez maior esforço financeiro.
No Mercado Municipal da Malanga, na cidade de Maputo, a subida é visível nos produtos de primeira necessidade. Tomate, pepino, cebola, batata e pimento registam preços significativamente superiores aos praticados no ano passado. Para muitos consumidores, a resposta tem sido comprar menos, reduzir quantidades e adaptar as refeições ao orçamento possível.
Uma comerciante ouvida no mercado explicou que o quilo de tomate, anteriormente vendido entre 25 e 50 meticais, passou a custar cerca de 100 meticais. A subida, segundo os vendedores, resulta da quebra da produção nacional provocada pelas cheias que afectaram zonas agrícolas no início do ano, obrigando os comerciantes a recorrer a produtos importados, sobretudo da África do Sul.
O mesmo cenário verifica-se com o pepino e o pimento. O quilo de pepino, que no ano passado podia ser encontrado entre 10 e 20 meticais, custa agora entre 50 e 60 meticais. Já a caixa de pimento, que chegou a custar cerca de 120 meticais, é actualmente adquirida por valores próximos dos 800 meticais.
A inflação deixa assim de ser apenas um indicador económico para se transformar numa realidade social concreta. Cada subida no preço dos alimentos representa menos margem para as famílias, sobretudo para aquelas que já viviam no limite entre o rendimento mensal e as despesas essenciais.
Os vendedores apontam vários factores para explicar a escalada de preços. Em primeiro lugar, as cheias afectaram a produção agrícola em diversas zonas do país, reduzindo a oferta de produtos frescos. Em segundo lugar, o aumento dos custos dos combustíveis e do transporte encareceu a circulação dos produtos até aos mercados urbanos. Em terceiro lugar, a necessidade de recorrer à importação agrava os preços finais pagos pelos consumidores.
Esta pressão é particularmente sensível num país onde uma parte significativa da população depende de rendimentos informais, pequenos negócios, agricultura familiar ou trabalho precário. Quando os alimentos sobem, não sobem apenas os preços: sobe também a ansiedade das famílias, aumenta a insegurança alimentar e diminui a capacidade de planear o futuro.
Os dados do INE mostram ainda que a inflação afecta de forma diferenciada as várias regiões do país. Em Maio, Nampula registou uma inflação mensal de 3,62%, acima da média nacional, enquanto a Beira registou 2,03% e Maputo 1,36%. Estes números revelam que o problema não se limita à capital e que o agravamento do custo de vida tem dimensão nacional.
As províncias de Gaza, Inhambane, Nampula e Tete surgem entre as regiões mais expostas à pressão sobre os preços, num quadro em que a produção, a circulação de bens e o acesso aos mercados continuam condicionados por vulnerabilidades estruturais e climáticas.
A situação confirma uma fragilidade antiga da economia moçambicana: a forte exposição das famílias aos choques climáticos, aos combustíveis, aos custos logísticos e à dependência alimentar. Quando as cheias afectam a produção, quando o transporte encarece ou quando a importação se torna inevitável, o impacto chega rapidamente ao prato dos consumidores.
O problema é, por isso, mais profundo do que uma simples oscilação de mercado. Moçambique precisa de reforçar a produção agrícola nacional, melhorar a resiliência das zonas rurais, investir em infraestruturas de escoamento, reduzir perdas pós-colheita e criar mecanismos mais eficazes de estabilização de preços para produtos essenciais.
Num país com grande potencial agrícola, solos férteis, juventude numerosa e localização estratégica, o aumento persistente do preço dos alimentos deve ser lido como um alerta político, económico e social. A segurança alimentar não pode depender apenas da capacidade de importar quando a produção nacional falha. Tem de assentar numa estratégia de desenvolvimento rural, protecção climática, logística eficiente e apoio efectivo aos pequenos produtores.
Para as famílias moçambicanas, porém, a urgência é mais imediata. O debate sobre inflação, produção agrícola e transporte traduz-se numa pergunta simples: quanto custa hoje alimentar uma casa?
E é nessa resposta, sentida todos os dias nos mercados, nas cozinhas e nos bolsos, que se mede verdadeiramente o peso do custo de vida em Moçambique.