Trata-se de um texto que expressa um apoio claro à CDU — uma coligação que, sendo de esquerda, merece, da minha parte, o maior respeito.
Num tempo em que a palavra é muitas vezes desvalorizada, não posso deixar de reagir à atitude de um jornalista da RTP, José Rodrigues dos Santos, que em pleno horário nobre, e num tom que considero inaceitável, insultou um deputado e líder partidário português. Esse ato não pode ficar sem resposta. O protesto, nestas circunstâncias, é não só legítimo, como necessário.
Noutro contexto, talvez tivesse optado por sintetizar o conteúdo deste manifesto. Mas hoje, face à violência simbólica que se ergue de tantos microfones e câmaras ao serviço de uma narrativa dominante, sinto que a única reação justa é publicar o texto na íntegra.
No próximo dia 18 de Maio, assumiremos um compromisso com a esperança em tempos difíceis. Apelamos a um voto certo e seguro contra as desigualdades económicas e o neoliberalismo, contra todas as derivas militaristas e os seus efeitos humanitários e ambientais nefastos. Contra a ameaça fascista que o avanço da extrema-direita representa, votaremos por um antifascismo com memória e futuro. Não somos militantes do PCP nem do PEV, mas votaremos na CDU e são estas as nossas razões.
São cada vez mais aqueles que, trabalhando e ganhando um salário, não têm direito a uma vida digna. Centenas de milhares trabalham mais de 10 horas por dia por valores que mal se aproximam do salário mínimo. A força de trabalho é cada vez mais descartável, empurrada para a precariedade por um sistema que vê nas pessoas apenas números.
Ao mesmo tempo, a habitação transforma-se em ativo financeiro e a cidade em território vedado. Enquanto os mais ricos se isolam em condomínios fechados, os que vivem nas periferias enfrentam transportes degradados, serviços públicos insuficientes e uma crescente criminalização da pobreza — onde falta Estado social, cresce o Estado policial.
Ainda assim, há quem insista na velha narrativa de que a riqueza vem dos unicórnios tecnológicos e de que o emprego é uma dádiva dos patrões. Recuso essa ideia. Acredito, pelo contrário, que a repartição justa da riqueza é uma questão política e social essencial à dignidade humana.
Sabemos que a crise é estrutural no capitalismo neoliberal. Serve para concentrar riqueza, empobrecer os trabalhadores e afastá-los da participação democrática. A crise, mais do que exceção, é o método.
Por isso, volto ao poeta Manuel Gusmão e ao seu apelo aos "dias levantados", a força transformadora que a revolução de Abril nos deixou. É esse espírito que me move.
Porque os governos, sejam de direita ou do PS, continuam a aceitar passivamente uma integração europeia que esvaziou de conteúdo as decisões democráticas. Porque aceitam a corrida aos armamentos e escondem os riscos de uma guerra na era nuclear, onde a vida humana é secundarizada perante os lucros.
Porque os 800 mil milhões de euros agora prometidos para o rearmamento europeu mostram a incoerência trágica de quem dizia não haver dinheiro para investir no Estado social. E porque, mais uma vez, as decisões sobre a defesa são tomadas à margem da democracia, afastando os cidadãos das escolhas mais cruciais.
É por isso que me oponho firmemente à normalização da guerra e defendo a paz. Porque a guerra, como se sabe, nunca é igual para todos.
Não compreendo a esquerda que se rende ao rearmamento. E estou certo de que os deputados da CDU manterão a sua coerência, recusando compromissos com este novo consenso militarista. Perante a ameaça fascista, reforçar a CDU é reforçar a memória da resistência e da construção democrática.
O combate ao fascismo exige firmeza, unidade e coragem. E a extrema-direita é, cada vez mais, o plano B do próprio neoliberalismo. A sua função é dividir para reinar: dividir as classes trabalhadoras, semear ódio, enfraquecer direitos e liberdades.
Nas eleições de 18 de Maio, precisamos de eleger quem nunca desistiu de lutar. Os que disseram “não” à guerra. Os que defenderam os salários dignos. Os que sempre combateram o fascismo, a precariedade, a desigualdade, o abandono do interior, o desmantelamento dos serviços públicos.
Votar na CDU é, também, levar a sério a ecologia política. Não a que se limita ao discurso, mas a que está enraizada nas lutas pela paz, pela justiça social e pela soberania democrática. Porque o colapso ambiental e o colapso social partilham a mesma raiz: um sistema económico predador, que despreza a vida em nome do lucro.
Como diz o lema: fim do mundo, fim do mês — é a mesma luta.