Na verdade, nada mudou. Ou melhor, mudou na forma, mas não no conteúdo.

A chamada cheganice lisboeta tem vindo a viabilizar muitas das propostas da liderança PSD/CDS-PP/IL na Câmara Municipal de Lisboa. A delegação de competências no presidente, o novo regimento da autarquia, o orçamento municipal para 2026 — tudo passou com essa convergência prática.

Digamos, sem rodeios, que Chega e Iniciativa Liberal têm funcionado como os “adjuntos” dois e três do executivo municipal.

E como se isso não bastasse, o presidente Carlos Moedas foi mais longe. No que parece um verdadeiro “mercado de inverno” político, integrou na maioria uma vereadora eleita pelo Chega que entretanto se desfiliou do partido.

Chama-se Ana Simões Silva. A 19 de janeiro anunciou a saída do Chega, passando a assumir o mandato como independente. A partir desse momento, o presidente social-democrata passou a contar, na prática, com maioria absoluta.

Moedas fixou em oito o número de vereadores em regime de tempo inteiro, atribuindo a Ana Simões Silva — doutorada em Medicina Dentária — os pelouros da Saúde e do Desperdício Alimentar, bem como competências no âmbito do grupo de trabalho responsável pelas candidaturas a projetos europeus.

O comunicado oficial fala em “reforço das condições para uma governação estável e coesa” e sublinha que a nova configuração assegura nove eleitos num total de 17, permitindo concretizar o programa sufragado para o quadriénio 2025-2029.

Mas a leitura política é simples: a maioria que já existia na prática passa agora a existir na aritmética formal.

Enquanto a direita se reorganiza e consolida posições, a esquerda continua fragmentada. Divide-se, dispersa-se e perde capacidade de influência num executivo onde as decisões estratégicas passam com conforto.

Virou disco e tocou o mesmo.

A geometria política mantém-se. A diferença é que agora já nem é preciso disfarçar.