Essa coligação — que deu um ténue fôlego a Luís Montenegro e uma réstia de protagonismo ao sr. Nuno Melo, líder do CDS — começa agora a mostrar sinais evidentes de tensão interna. E é precisamente por isso que se coloca, de forma pública e direta, a pergunta que muitos evitam fazer: estará o CDS a caminhar para o mesmo destino do PPM?
Duvido que o sr. Melo se disponha a responder. Talvez por receio. Talvez porque os arrepios de desconfiança já lhe atravessam a espinha, embora sem coragem de os verbalizar.
A verdade é simples e desconcertante: o PSD sente-se desconfortável ao ponto de negar ao PPM aquilo que lhe havia prometido antes das eleições – um lugar de deputado. Uma promessa feita e não cumprida. Uma traição política, dirão alguns. Um sinal claro de que, na lógica atual da direita, não há espaço para alianças baseadas na palavra dada.
E o CDS? Vai engolir em seco este "cuspir" político ao parceiro de coligação?
Será que Nuno Melo acredita que o seu partido é imune à lógica do descartável? Ou pensa que, por ter um nome mais sonante, o CDS está protegido do mesmo destino?
A verdade é que os tímidos textos de apoio à decisão do PSD, ou os mais escandalosos e despudorados (como o exemplo citado abaixo), apenas reforçam a ideia de que, na direita portuguesa, não há contemplações. Há sobrevivência. E quando o campo se torna uma arena, as alianças tornam-se descartáveis, e o CDS pode muito bem ser o próximo alvo da limpeza estratégica.
O excerto que se segue, retirado da imprensa, é mais um sintoma do ambiente ideológico que se vive à direita – onde se mistura arrogância, autoritarismo e uma certa tolerância ao extremismo travestido de opinião livre:
“Quando a notícia surgiu, parecia mais uma daquelas fake news das redes sociais, mas não é; a informação vem do próprio PCP. A história é tão idiota que até surpreende como o partido se meteu neste disparate: então o PCP quer ditar a forma como um jornalista conduz a entrevista? Para isso escreve um press release e faz a propaganda que lhe aprouver...”
(Jornal de Negócios, 25/03)
Neste cenário, urge lançar o alerta:
Acautele-se o CDS. Porque quando se legitima o "vale tudo" na política, todos, mais cedo ou mais tarde, se tornam dispensáveis.
E, já agora, não seria de todo despropositado que o CDS se dignasse a responder à pergunta que aqui se coloca: será mesmo o próximo a cair?