Entre os muitos combates democráticos em que participou, talvez tenha faltado aquele de que a esquerda portuguesa mais continua a necessitar: a construção de uma verdadeira força agregadora das esquerdas democráticas, capaz de unir diferentes sensibilidades progressistas que não se revêm nem no modelo marxista-leninista do PCP nem na errância política em que o Bloco de Esquerda tantas vezes se perdeu.
De resto, o percurso de Carlos Brito permanece como o de um dos mais relevantes combatentes da democracia participativa em Portugal. Foi preso três vezes pela ditadura fascista, passou oito anos nas cadeias do regime e resistiu sem abdicar das suas convicções. Mais tarde, destacou-se também no plano parlamentar, ao longo de quinze anos de intensa intervenção política e cívica.
O Estrategizando lamenta profundamente a morte de Carlos Brito e presta-lhe homenagem como exemplo maior de coragem democrática, independência intelectual e compromisso com a liberdade, mesmo quando existiam divergências políticas.
Tal como Carlos Brito, estivemos do lado do general Ramalho Eanes contra a ameaça representada por Soares Carneiro. Tal como ele, apoiámos ativamente a experiência da Geringonça, lamentando apenas que dela não tenha nascido um verdadeiro governo de unidade das esquerdas, capaz de consolidar uma alternativa progressista duradoura em Portugal.
Em sua homenagem, publicamos o Manifesto sobre o Centenário do PCP, texto de reflexão crítica e compromisso político que permanece profundamente atual.
"Centenário Comunista. Um Século de Luta e Transformação
Os últimos 100 anos mudaram Portugal e o mundo. O tempo acelerado que vivemos não vai no sentido imaginado pelos revolucionários de 1917, porque é marcado por formas muito diferentes de exploração.
O centenário do PCP confunde-se com o centenário da própria ideia comunista em Portugal. É uma data celebrada por todos os que são comunistas, sejam membros ou não do PCP.
Nestes cem anos, orgulham-se os comunistas de terem sido a força motriz das grandes transformações políticas progressistas em Portugal: a conquista da liberdade, os avanços revolucionários de Abril, o fim da guerra colonial e a Constituição da República. Ao longo da noite escura do fascismo foram heroicos os que empunharam a bandeira da liberdade e devem ser homenageados sem exclusões, desde os mais anónimos aos mais proeminentes que sempre recusaram o culto da personalidade.
O centenário do PCP acontece numa época de intoleráveis desigualdades, crise, e perigos imensos para a democracia em todo o mundo com ascenso da extrema-direita e tentativas de instauração de ditaduras.
Apesar de negras essas nuvens, os olhos dos excluídos viram-se com esperança para a ideia socialista. Nunca como agora o interesse pelas ideias do socialismo e do marxismo foram tão difundidas, incluindo nos EUA. Se é certo que se reforçam as condições para o ideal comunista conquistar apoios, a sua influência vem, paradoxalmente, declinando. Em Portugal, uma tal trajetória evidencia insuficiência de estratégia, incapacidade para o estabelecimento de alianças pertinentes e um posicionamento eivado de sectarismo. A não ser corrigida esta trajetória, arrisca-se a um inexorável definhamento que desprotegeria a luta dos trabalhadores, enfraqueceria a aspiração pelo socialismo e abriria a porta ao avanço da direita.
Este é um problema que não pode deixar de preocupar os comunistas, os que estão no PCP e os que não estão. Todos se devem inquietar e todos deveriam abrir espaço a uma séria reflexão, desejavelmente sem exclusões, em torno do que deve ser o ideal comunista na atualidade e qual a linha necessária para alcançar novos patamares em todas as áreas da sociedade.
O projeto de transição que os comunistas ambicionam defender deverá ser suportado por um programa com o qual a maioria da sociedade se identifique e defenda. Um programa de transição com este figurino é um enorme e original desafio para o avanço da democracia em Portugal.
O ideal socialista precisa de ser reconfigurado. A exploração capitalista não acabou, mas faz-se em novas condições. A imensa maioria vive dos rendimentos provenientes do seu trabalho. A revolução tecnológica operou profundas mudanças no mundo dos que vivem dos seus salários. Produziram-se mutações no tecido laboral. A sociedade atomizou-se. Tornou-se mais difícil unificar largas massas populares. Por outro lado, entraram no mundo laboral outras camadas sociais. Porém, aumentaram as desigualdades sociais. Em Portugal entre vinte e vinte e cinco por cento da população vive na pobreza, uma das mais deprimentes postulas do capitalismo.
O ideal socialista continua a ser o mais sólido e justo do ponto de vista dos interesses da imensa maioria dos trabalhadores sejam efetivos, a prazo, precários, intelectuais, funcionários públicos, criadores ou outros. A estes juntam-se empresários que através do seu esforço criam emprego e riqueza.
No quadro da U.E. as transformações exigirão sempre e agora cada vez mais as solidariedades dos povos. Numa U.E. moderna e de paz impõe-se retificar a deriva neoliberal e enveredar por uma política de coesão entre os países.
É hoje necessária, mais do que nunca, uma séria abertura entre todas as forças de esquerda sem laivos de sectarismo. A envergadura das transformações exigirá de todas essas forças novas abordagens destinadas a entendimentos e convergências. Cada uma deverá ter a força da sua força, sem quaisquer direitos naturais.
O PCP deve ser modelo de democracia que antecipa na sua vida interna o sentido de aprofundamento do processo de democratização que deseja para o conjunto da sociedade. Os comunistas devem dar combate sem tréguas ao sectarismo, que prejudica o lançamento de ações de luta nas empresas e no país, e retomar a sua antiga e extraordinária tradição unitária.
Celebremos, pois, um século de luta dos comunistas portugueses e os extraordinários exemplos de avanço de que nos orgulhamos. Para que o segundo centenário frutifique, não podemos continuar a ignorar o que tem sido a redução da expressão da ideia comunista. Ter coragem implica agir de acordo com as circunstâncias, mas sem abdicar da firmeza das convicções. Se não houver essa coragem, a história não nos perdoará. Sejamos capazes de ir ao encontro do futuro levando na mão um dos mais belos ideais da Humanidade- o ideal socialista resgatado."
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Abílio Travessas |
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António Avelãs |
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António Bica |
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António Cruz |
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António Martins Coelho |
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Armando Lopes Bernardino Aranda |
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Carlos Bento Leal |
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Carlos Brito |
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Carlos Luís Figueira |
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Carlos Ramildes |
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Cipriano Justo |
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Domingos Lopes |
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Ernesto Afonso |
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Fernando Oliveira |
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Fernando Sousa Marques |
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Fernando Vicente |
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Guadalupe Simões |
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Hélio Samorrinha |
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Isabel do Carmo |
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Isabel Soares |
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Joaquim Lopes Neto |
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José Carlos Martins |
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José Carreira Marques |
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José Maria Silva |
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José Morais |
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José Tavares |
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Luís Gamito |
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Manuel Joaquim Cerdeira Dias Maria Augusta de Sousa |
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Maria de Lourdes Teixeira Guerreiro |
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Maria João Andrade |
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Mário Dias Sousa |
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Mário Fonseca |
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Nelson Bertini |
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Nídia Zózimo |
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Orlando Almeida |
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Paulo Fidalgo |
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Paulo Jacinto |
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Paulo Sucena |
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Rodrigo Henriques |
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Rogério Brito |
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Rosa Nunes Lopes Brito |
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Rui Pato |
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Teresa Sampaio |
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Vítor Sarmento |