Carlos Brito morreu. Morreu um comunista. Morreu um resistente. Morreu um homem que atravessou quase um século de vida com a coerência rara de quem lutou sempre pelos outros e nunca por si próprio.

Faleceu aos 93 anos, em Alcoutim, com a humildade discreta dos verdadeiros camaradas. Dos que nunca procuraram protagonismo pessoal, privilégios ou glória. A sua vida foi dedicada ao combate político, à liberdade, à democracia e à dignidade dos trabalhadores e dos mais pobres.

Entre os muitos combates democráticos em que participou, talvez tenha faltado aquele de que a esquerda portuguesa mais continua a necessitar: a construção de uma verdadeira força agregadora das esquerdas democráticas, capaz de unir diferentes sensibilidades progressistas que não se revêm nem no modelo marxista-leninista do PCP nem na errância política em que o Bloco de Esquerda tantas vezes se perdeu.

De resto, o percurso de Carlos Brito permanece como o de um dos mais relevantes combatentes da democracia participativa em Portugal. Foi preso três vezes pela ditadura fascista, passou oito anos nas cadeias do regime e resistiu sem abdicar das suas convicções. Mais tarde, destacou-se também no plano parlamentar, ao longo de quinze anos de intensa intervenção política e cívica.

O Estrategizando lamenta profundamente a morte de Carlos Brito e presta-lhe homenagem como exemplo maior de coragem democrática, independência intelectual e compromisso com a liberdade, mesmo quando existiam divergências políticas.

Tal como Carlos Brito, estivemos do lado do general Ramalho Eanes contra a ameaça representada por Soares Carneiro. Tal como ele, apoiámos ativamente a experiência da Geringonça, lamentando apenas que dela não tenha nascido um verdadeiro governo de unidade das esquerdas, capaz de consolidar uma alternativa progressista duradoura em Portugal.

Em sua homenagem, publicamos o Manifesto sobre o Centenário do PCP, texto de reflexão crítica e compromisso político que permanece profundamente atual.

Leia na íntegra o texto do manifesto:

"Centenário Comunista. Um Século de Luta e Transformação

Os últimos 100 anos mudaram Portugal e o mundo. O tempo acelerado que vivemos não vai no sentido imaginado pelos revolucionários de 1917, porque é marcado por formas muito diferentes de exploração.

O centenário do PCP confunde-se com o centenário da própria ideia comunista em Portugal. É uma data celebrada por todos os que são comunistas, sejam membros ou não do PCP.

Nestes cem anos, orgulham-se os comunistas de terem sido a força motriz das grandes transformações políticas progressistas em Portugal: a conquista da liberdade, os avanços revolucionários de Abril, o fim da guerra colonial e a Constituição da República. Ao longo da noite escura do fascismo foram heroicos os que empunharam a bandeira da liberdade e devem ser homenageados sem exclusões, desde os mais anónimos aos mais proeminentes que sempre recusaram o culto da personalidade.

O centenário do PCP acontece numa época de intoleráveis desigualdades, crise, e perigos imensos para a democracia em todo o mundo com ascenso da extrema-direita e tentativas de instauração de ditaduras.

Apesar de negras essas nuvens, os olhos dos excluídos viram-se com esperança para a ideia socialista. Nunca como agora o interesse pelas ideias do socialismo e do marxismo foram tão difundidas, incluindo nos EUA. Se é certo que se reforçam as condições para o ideal comunista conquistar apoios, a sua influência vem, paradoxalmente, declinando. Em Portugal, uma tal trajetória evidencia insuficiência de estratégia, incapacidade para o estabelecimento de alianças pertinentes e um posicionamento eivado de sectarismo. A não ser corrigida esta trajetória, arrisca-se a um inexorável definhamento que desprotegeria a luta dos trabalhadores, enfraqueceria a aspiração pelo socialismo e abriria a porta ao avanço da direita.

Este é um problema que não pode deixar de preocupar os comunistas, os que estão no PCP e os que não estão. Todos se devem inquietar e todos deveriam abrir espaço a uma séria reflexão, desejavelmente sem exclusões, em torno do que deve ser o ideal comunista na atualidade e qual a linha necessária para alcançar novos patamares em todas as áreas da sociedade.

O projeto de transição que os comunistas ambicionam defender deverá ser suportado por um programa com o qual a maioria da sociedade se identifique e defenda. Um programa de transição com este figurino é um enorme e original desafio para o avanço da democracia em Portugal.

O ideal socialista precisa de ser reconfigurado. A exploração capitalista não acabou, mas faz-se em novas condições. A imensa maioria vive dos rendimentos provenientes do seu trabalho. A revolução tecnológica operou profundas mudanças no mundo dos que vivem dos seus salários. Produziram-se mutações no tecido laboral. A sociedade atomizou-se. Tornou-se mais difícil unificar largas massas populares. Por outro lado, entraram no mundo laboral outras camadas sociais. Porém, aumentaram as desigualdades sociais. Em Portugal entre vinte e vinte e cinco por cento da população vive na pobreza, uma das mais deprimentes postulas do capitalismo.

O ideal socialista continua a ser o mais sólido e justo do ponto de vista dos interesses da imensa maioria dos trabalhadores sejam efetivos, a prazo, precários, intelectuais, funcionários públicos, criadores ou outros. A estes juntam-se empresários que através do seu esforço criam emprego e riqueza.

No quadro da U.E. as transformações exigirão sempre e agora cada vez mais as solidariedades dos povos. Numa U.E. moderna e de paz impõe-se retificar a deriva neoliberal e enveredar por uma política de coesão entre os países.

É hoje necessária, mais do que nunca, uma séria abertura entre todas as forças de esquerda sem laivos de sectarismo. A envergadura das transformações exigirá de todas essas forças novas abordagens destinadas a entendimentos e convergências. Cada uma deverá ter a força da sua força, sem quaisquer direitos naturais.

O PCP deve ser modelo de democracia que antecipa na sua vida interna o sentido de aprofundamento do processo de democratização que deseja para o conjunto da sociedade. Os comunistas devem dar combate sem tréguas ao sectarismo, que prejudica o lançamento de ações de luta nas empresas e no país, e retomar a sua antiga e extraordinária tradição unitária.

Celebremos, pois, um século de luta dos comunistas portugueses e os extraordinários exemplos de avanço de que nos orgulhamos. Para que o segundo centenário frutifique, não podemos continuar a ignorar o que tem sido a redução da expressão da ideia comunista. Ter coragem implica agir de acordo com as circunstâncias, mas sem abdicar da firmeza das convicções. Se não houver essa coragem, a história não nos perdoará. Sejamos capazes de ir ao encontro do futuro levando na mão um dos mais belos ideais da Humanidade- o ideal socialista resgatado."

Lista de subscritores:

Abílio Travessas

António Avelãs

António Bica

António Cruz

António Martins Coelho

Armando Lopes

Bernardino Aranda

Carlos Bento Leal

Carlos Brito

Carlos Luís Figueira

Carlos Ramildes

Cipriano Justo

Domingos Lopes

Ernesto Afonso

Fernando Oliveira

Fernando Sousa Marques

Fernando Vicente

Guadalupe Simões

Hélio Samorrinha

Isabel do Carmo

Isabel Soares

Joaquim Lopes Neto

José Carlos Martins

José Carreira Marques

José Maria Silva

José Morais

José Tavares

Luís Gamito

Manuel Joaquim Cerdeira Dias

Maria Augusta de Sousa

Maria de Lourdes Teixeira Guerreiro

Maria João Andrade

Mário Dias Sousa

Mário Fonseca

Nelson Bertini

Nídia Zózimo

Orlando Almeida

Paulo Fidalgo

Paulo Jacinto

Paulo Sucena

Rodrigo Henriques

Rogério Brito

Rosa Nunes Lopes Brito

Rui Pato

Teresa Sampaio

Vítor Sarmento