No domingo, 4 de janeiro de 2026, as ruas de Caracas foram ocupadas por milhares de pessoas num protesto claro e ruidoso contra aquilo que muitos manifestantes classificam como “pirataria política” por parte de Donald Trump.
Não se tratou de aclamações a prémios internacionais nem de encenações diplomáticas: foi uma manifestação crua de soberania popular, de indignação e de memória histórica.
A mensagem central repetiu-se em cartazes, palavras de ordem e gestos: não é raptando líderes eleitos, nem confiscando capitais de um Estado, que se constrói uma democracia. A democracia — insistem muitos venezuelanos — constrói-se com instituições, participação cívica, respeito pelo direito internacional e, sobretudo, com coerência ética nas relações entre Estados.
A leitura feita nas ruas de Caracas aponta para um duplo critério que dificilmente passa despercebido. Países como a Arábia Saudita ou Angola, onde os interesses petrolíferos internacionais — incluindo norte-americanos — são estruturantes, não enfrentam o mesmo tipo de retórica intervencionista nem operações de força com o rótulo de “promoção da democracia”. A pergunta impõe-se: por que razão a democracia se invoca seletivamente, consoante os alinhamentos geopolíticos e económicos?
A luta do povo venezuelano, como foi sublinhado por muitos participantes, não é apenas contra um ator externo, mas também a favor de um princípio universal: o direito dos povos a escolherem o seu caminho sem coerção. Há, neste gesto coletivo, um significado que ultrapassa fronteiras — o amor solidário por quem luta ao lado, a recusa da humilhação e a afirmação de que a soberania não é negociável em mesas de interesse energético.
Como escreveu Hannah Arendt, “o poder nasce quando as pessoas agem em conjunto”. Em Caracas, esse poder manifestou-se não como espetáculo, mas como testemunho político. Num mundo onde a palavra “democracia” é tantas vezes instrumentalizada, as ruas lembraram que ela não pode ser construída à força, nem exportada por rapto, nem legitimada pelo saque de recursos. Democracia exige coerência. E memória.
Fontes e leituras de referência
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Carta das Nações Unidas, artigos 1.º e 2.º (princípios de soberania e não-ingerência).
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Antonio Cassese, International Law, Oxford University Press.
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Hannah Arendt, On Violence, Harcourt Brace.
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Human Rights Watch — relatórios comparativos sobre direitos humanos e política externa.
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SIPRI — dados sobre interesses energéticos e geopolítica internacional.