Estas eleições presidenciais — como tantas outras antes delas — demonstram à saciedade que continuamos a confundir participação com escolha, e boletim com poder.

A encenação é moderna, mas o enredo é velho.

Em 1908, Lenine escrevia sobre as eleições para a Duma com uma clareza que ainda hoje incomoda.

Denunciava as fraudes eleitorais praticadas nos bastidores da burguesia democrata constitucionalista e o seu apelo paternalista: “Confiem em nós, nos advogados, nos professores e nos latifundiários esclarecidos.”

A fórmula é conhecida: prometer proteção às massas enquanto se lhes pede, em troca, a renúncia à própria consciência.

O aviso era simples e brutal:

A maior ameaça não está nas centúrias negras, mas na corrupção da consciência das massas que seguem cegamente a burguesia liberal, as suas palavras de ordem, as suas candidaturas, a sua política.

Passaram mais de cem anos, mudaram os nomes, mudaram os slogans, mudaram até os cenários — agora com estúdios televisivos, hashtags e comentadores profissionais — mas a lógica mantém-se.

A democracia representativa tornou-se um teatro onde o público paga bilhete, aplaude, mas não escreve o guião.

O que vemos hoje não é muito diferente daquilo que Lenine descreveu:

candidatos embalados como produtos de prateleira,

discursos que prometem tudo e explicam nada, e uma máquina eleitoral que transforma cidadania em espetáculo.

A farsa não está no acto de votar — esse continua a ser um direito precioso — mas na ilusão de que o voto, sozinho, resolve o que a organização coletiva abandona.

Lenine insistia:

“Acreditem apenas na vossa consciência e na vossa organização.”

E talvez seja esse o ponto que mais incomoda: a consciência organizada é sempre mais perigosa do que qualquer candidato.

No fundo, o que estas eleições revelam não é apenas a fragilidade do processo, mas a fragilidade da nossa exigência. Continuamos a aceitar etiquetas vistosas, frases sonoras e promessas embaladas para consumo rápido.

Continuamos a delegar a luta, como se a liberdade fosse um serviço subcontratado.

No Café com Aires, onde o humor serve de antídoto e a memória de bússola, fica o lembrete: a democracia não se defende de quatro em quatro anos — constrói-se todos os dias.

E quando deixamos que outros pensem por nós, decidam por nós e lutem por nós, o que entregamos não é apenas o voto. É a própria consciência