Cabo Verde regista queda histórica do desemprego em 2025, mas persistem fragilidades profundas no mercado laboral

Dados do INE revelam redução da taxa de desemprego para 4,9% e crescimento do emprego em vários sectores, embora a informalidade, o subemprego e a exclusão dos jovens continuem a expor vulnerabilidades estruturais da economia cabo-verdiana

Cabo Verde encerrou o segundo semestre de 2025 com um dos níveis de desemprego mais baixos dos últimos anos. Segundo os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de desemprego caiu para 4,9%, representando uma redução significativa de 2,4 pontos percentuais face ao mesmo período de 2024.

Os números revelam uma dinâmica positiva do mercado laboral cabo-verdiano, impulsionada pelo crescimento da população activa, pela recuperação de sectores estratégicos da economia e pelo aumento do emprego em várias regiões do país. No entanto, por detrás destes indicadores encorajadores, permanecem desafios estruturais que continuam a afectar milhares de cidadãos, sobretudo jovens e mulheres.

A população empregada atingiu os 215.317 indivíduos, mais 14 mil pessoas empregadas em comparação com o ano anterior. A taxa de emprego subiu para 57,4%, evidenciando uma recuperação gradual da capacidade económica do país após anos marcados por crises internacionais, impactos da pandemia e vulnerabilidades associadas à dependência externa.

Os sectores ligados ao comércio, construção civil, alojamento, restauração e administração pública continuam a desempenhar um papel central na absorção da mão-de-obra nacional. O sector terciário permanece dominante, concentrando mais de 70% do emprego total no arquipélago.

As ilhas do Sal e da Boa Vista destacaram-se como os territórios com maiores taxas de emprego, reflexo directo da forte actividade turística e da concentração de investimentos ligados ao sector dos serviços e hotelaria. A cidade da Praia também apresentou indicadores robustos de empregabilidade.

Contudo, os dados revelam igualmente uma realidade menos visível e mais preocupante: quase metade dos trabalhadores cabo-verdianos continua inserida no mercado informal. Cerca de 96 mil pessoas encontram-se em situação de emprego informal, sem garantias sociais sólidas, protecção laboral adequada ou estabilidade económica sustentável.

Esta realidade expõe uma contradição recorrente nas economias em desenvolvimento: o crescimento do emprego nem sempre significa melhoria efectiva da qualidade de vida ou segurança laboral.

Outro sinal de alerta surge entre os jovens. Apesar da descida geral do desemprego, a taxa entre os jovens dos 15 aos 24 anos permanece elevada, situando-se nos 15,9%. Além disso, mais de 34 mil jovens entre os 15 e os 35 anos encontram-se fora do emprego, do ensino e da formação profissional.

Este fenómeno, frequentemente identificado internacionalmente como geração “nem-nem”, representa um dos maiores desafios sociais e económicos contemporâneos. A ausência de integração produtiva da juventude pode gerar consequências profundas ao nível da exclusão social, perda de capital humano, aumento da vulnerabilidade económica e fragilização da coesão social.

As desigualdades de género também permanecem evidentes. As mulheres continuam a enfrentar maiores níveis de inactividade, subutilização laboral e subemprego. A taxa de subutilização do trabalho entre as mulheres ultrapassa significativamente a dos homens, revelando barreiras persistentes no acesso ao mercado laboral em condições equitativas.

Especialistas defendem que os dados do INE devem ser analisados com prudência. Embora os indicadores apontem para uma evolução positiva, os desafios estruturais da economia cabo-verdiana continuam profundamente ligados à dependência do turismo, à fragilidade do sector produtivo nacional, à precariedade laboral e às limitações de diversificação económica.

Num contexto internacional marcado por incertezas económicas, alterações climáticas e instabilidade geopolítica, Cabo Verde enfrenta o desafio estratégico de transformar crescimento estatístico em desenvolvimento humano sustentável.

A questão central deixa de ser apenas quantos empregos são criados, mas que tipo de empregos estão efectivamente a ser gerados e qual o impacto real dessas oportunidades na dignidade e estabilidade das famílias cabo-verdianas.

Como defendia o economista indiano e Prémio Nobel Amartya Sen: “O desenvolvimento deve ser visto como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam.”

Num país jovem, insular e profundamente marcado pela diáspora, o verdadeiro desafio poderá residir precisamente aí: transformar crescimento económico em liberdade social, dignidade laboral e futuro colectivo.

Fontes

  • Instituto Nacional de Estatística de Cabo Verde (INE) — Inquérito Multiobjectivo Contínuo 2025
  • Organização Internacional do Trabalho (OIT)
  • Banco Mundial — Indicadores de Emprego e Desenvolvimento
  • Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)
  • https://ine.cv

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“O desenvolvimento deve ser visto como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam.” — Amartya Sen