A entrevista de Elisa Dias ao canal Omega TV UK parte de uma pergunta simples e politicamente poderosa: porque se fala tão pouco de Cabo Verde?

A resposta que a coordenadora de A Diáspora Para a Liderança de Excelência e Desenvolvimento Sustentávelensaia é clara. Fala-se pouco porque o arquipélago continua muitas vezes fora do radar mediático africano e internacional, apesar de apresentar estabilidade institucional, forte ligação à diáspora e um modelo de afirmação externa assente na cultura, no turismo e na abertura ao investimento.

Ao longo da conversa, Elisa Dias insiste numa ideia central: a diáspora não deve ser vista apenas como memória afetiva ou fluxo de remessas, mas como instrumento ativo de desenvolvimento. Essa perspetiva não surge do nada. O próprio Estado cabo-verdiano mantém iniciativas formais de envolvimento da diáspora, incluindo plataformas de registo e programas orientados para mobilizar competências, investimento e participação cívica de cabo-verdianos residentes no exterior.

Há, aliás, um dado que reforça a pertinência desta estratégia: Cabo Verde continua a crescer, mas permanece vulnerável. Segundo o Banco Mundial, a economia cabo-verdiana cresceu 7,3% em 2024, impulsionada sobretudo pelo turismo, que foi responsável por mais de 70% da expansão económica. As chegadas turísticas aumentaram 16,5%, atingindo 1,18 milhões. Ao mesmo tempo, o Banco Mundial alerta para a excessiva dependência do turismo, os riscos ligados às empresas públicas, a elevada dívida e a vulnerabilidade a choques externos e climáticos. Ou seja, há progresso, mas não há milagre.

É precisamente neste ponto que a entrevista merece leitura atenta

Elisa Dias apresenta Cabo Verde como espaço de investimento em energias renováveis, digital, hotelaria, alojamento e construção. Essa mensagem encontra respaldo institucional: a Cabo Verde TradeInvest promove o país como destino de investimento, dispõe de um “Balcão Único de Investimento” e enquadra a captação de capital como eixo de crescimento económico e mobilidade social. Também o guia do investidor da diáspora destaca benefícios fiscais, aduaneiros e administrativos para investidores cabo-verdianos residentes no estrangeiro.

A dimensão digital mencionada na entrevista também não é mera retórica. O Portal Único do Governo de Cabo Verde já integra serviços públicos digitais em áreas como passaporte, identificação civil, carta de condução, registo criminal, fiscalidade, ensino superior e investimento. Esta digitalização é um dos sinais de modernização administrativa do Estado e ajuda a sustentar a imagem de um país funcional, ainda que isso não elimine desigualdades nem resolva todos os constrangimentos estruturais.

Outro dos pontos fortes da entrevista é a defesa da identidade africana de Cabo Verde.

Elisa Dias rejeita a leitura redutora segundo a qual o país seria apenas uma extensão cultural de Portugal ou do Brasil. Sublinha, pelo contrário, que a base da identidade cabo-verdiana é africana, ainda que marcada por uma história atlântica de mestiçagem, crioulização e circulação transnacional. Essa afirmação tem peso simbólico num momento em que vários setores da sociedade cabo-verdiana procuram reforçar laços com o continente sem abdicar da especificidade insular do país.

A entrevista torna-se ainda mais interessante quando sai do discurso institucional e entra no terreno da representação cultural.

Elisa Dias fala da morabeza, da música, da gastronomia, do grogue, do vinho do Fogo, do café, do queijo, das praias do Sal e da Boa Vista, da centralidade cultural da Praia e da singularidade de cada ilha. Esse inventário não é apenas turístico. É uma forma de converter património em linguagem geopolítica: mostrar Cabo Verde como pequeno em território, mas vasto em valor simbólico e económico.

Há também uma dimensão de projeção internacional que não pode ser ignorada. Na entrevista, Elisa refere com orgulho a qualificação histórica de Cabo Verde para o Mundial de futebol de 2026. Esse ponto está confirmado por fontes desportivas internacionais e africanas: em março de 2026, a seleção cabo-verdiana já era apresentada como estreante no Campeonato do Mundo, um feito de enorme impacto para a visibilidade externa do país. Num Estado arquipelágico com cerca de 527 mil habitantes em 2025, este tipo de conquista funciona como multiplicador de notoriedade, autoestima nacional e poder de marca.

A imagem de Cabo Verde como país estável e seguro é amplamente reconhecida por várias instituições internacionais, mas isso não dispensa o escrutínio sobre desafios reais como desigualdades, precariedade laboral, emigração de jovens qualificados e dependência do exterior.

É precisamente por isso que esta entrevista importa. Não porque ofereça um retrato exaustivo de Cabo Verde, mas porque mostra uma  diáspora empenhada em reposicionar o país no imaginário africano e global.

O que Elisa Dias faz, no fundo, é disputar narrativa. E, numa era em que países pequenos precisam de visibilidade para atrair investimento, turismo, alianças e reconhecimento, disputar narrativa é também fazer política pública por outras vias.

A grande questão é saber se essa narrativa será acompanhada por uma estratégia de desenvolvimento suficientemente robusta para transformar prestígio em prosperidade partilhada. Cabo Verde tem hoje indicadores que sustentam algum otimismo: crescimento económico forte, avanço digital, expansão do turismo e capacidade de projeção internacional. Mas também enfrenta limites conhecidos: elevada exposição a choques externos, peso da dívida, dependência do turismo e necessidade de diversificação produtiva. O país que Elisa Dias descreve existe. Mas existe ao lado de outro: mais frágil, mais desigual e mais exigente do que a retórica promocional deixa ver.

No fim, a entrevista deixa uma lição útil.

Cabo Verde não precisa de ser romantizado para ser valorizado. Precisa, isso sim, de ser compreendido na sua complexidade: arquipélago africano, Estado democrático de pequena escala, sociedade profundamente moldada pela diáspora e país que tenta transformar vulnerabilidade em inteligência estratégica. Essa talvez seja a sua maior força. Não a ausência de problemas, mas a capacidade de construir futuro a partir deles.